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Expresso

Diário do Quénia

Tudo continua na mesma e ao mesmo tempo tudo mudou

Darko Bandic/AP

Continuo no mesmo sítio, aquele que a título de piada resolvemos chamar a casa Big Brother mas desde que aqui estou já assisti a mudanças profundas quer em mim quer nos outros voluntários. Tem sido uma experiência e tanto! 

Agora, após digerir o turbilhão de emoções que caracterizaram estas últimas semanas consigo finalmente encarar os factos e aceitar a realidade. É curioso, o tempo que conseguimos passar a negar ou a fazer de conta, a tentar mudar a realidade para que esta encaixe no nosso mundinho ideal. Em que é que isto nos ajuda? Em nada... apenas imputa mais sofrimento a uma situação já por si só difícil.

Muito aprendi e outro tanto relembrei. Aprendi fundamentalmente com os outros. Aprendi novas formas de transformar situações adversas e a apreciar o que estas podem trazer de bom. Sim, de facto, encontro-me numa situação estilo Big Brother mas exactamente por essa razão tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas e com elas viver momentos fantásticos.

Relembrei que a vida e volátil, que tudo esta em constante mudança, que ao nos agarrarmos às coisas, ao não aceitarmos a fluidez da vida, sentimos mais sofrimento.

Um dos privilégios que tive foi conhecer a Anique, uma voluntária holandesa que já me proporcionou muitos momentos agradáveis com um "gostinho" muito português. Anique tem no seu computador música e vozes como a de Dulce Pontes, Cristina Branco e Fernando Lameirinhas. Tem dois cavalos Lusitanos na Holanda, adora bacalhau, a língua e música portuguesas. Anique percebe e fala um pouco da nossa língua porque resolveu comprar uns livros e começar a estudar. Leu o Harry Potter em português e ouve a nossa rádio através da Internet para praticar!!! Não consigo evitar sentir-me honrada pois não estou habituada a encontrar pessoas tão interessadas em conhecer melhor a minha cultura e língua.

Anique é uma das voluntárias que a partida voltara para o seu Projecto. Anique esta em Mtwapa, sítio muito pacífico, poucos quilómetros a Norte de Mombasa, e por se encontrar nos primeiros três meses de um projecto de vida de dois anos está disposta a esperar umas semanas para retomar o seu trabalho.

Outros tantos como eu estamos a preparar-nos para voltar para os nossos países. Os meus amigos, Tom e Caspar, que estão a fazer pesquisa em pássaros, foram a minha casa empacotar tudo para me tentar fazer chegar. Comecei a despedir-me das pessoas por telefone porque estou a cerca de oito horas de autocarro de Kidaya e não tenho autorização de viajar por terra devido ao aumento da criminalidade nas estradas. Como as forças policial e militar estão concentradas nos "pontos quentes" do país as estradas, como a que liga Mombassa a Nairobi, estão menos patrulhadas o que tem levado ao crescimento de bloqueios (com pneus, troncos e grandes toros de madeira com grandes espigas metálicas e pontiagudas) e assaltos.

Enfim... O que importa notar e valorizar é que, independentemente de ter "perdido" um projecto, um trabalho, ou poder não voltar a recuperar alguns bens pessoais, eu faço parte do grupo privilegiado de pessoas que têm alguma base por onde recomeçar. E os milhares de quenianos que já anteriormente viviam abaixo da linha de pobreza? E os milhares de desalojados? Por onde poderão eles recomeçar? Quanto tempo levarão eles a recuperar desta tragédia? E será que alguma vez recuperarão?