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Expresso

Diário do Quénia

Três horas na fila da gasolina

Mike Hutchings

Depois de ter encontrado um raro multibanco com dinheiro, juntei-me aos meus amigos "mzungos" (homem branco, em swahili) que se encontravam na interminável fila da única bomba de gasolina que, num raio de centenas de quilómetros, ainda tinha combustível. Ao fim de cerca de três horas de espera, lá chegou a nossa vez - para conseguir meia dúzia de litros de gasolina...

A 31 de Dezembro, ainda em Watamu, a VSO (a ONG a que estou vinculada) dá início ao seu plano de emergência. A primeira fase do plano passa por reunir os voluntários que se encontram geograficamente próximos do que a minha organização chama de "ponto de consolidação". De forma a garantir que as nossas necessidades básicas sejam satisfeitas, colocam-nos em hotéis em regime de pensão completa. 

Assim, saí da pensão, ponto de paragem do chamado "turista de pé descalço", onde me encontrava, para um resort italiano de cinco estrelas, onde fiquei durante os dias seguintes! Não consigo deixar de pensar o quão irónica é esta relação inversamente proporcional de acontecimentos: quanto mais negro é o cenário do país, melhor é aquele que os meus sentidos apreendem!

Passei a noite de passagem de ano à beira da piscina a beber pinacoladas, a ouvir Eros Ramazzotis e Lauras Pausinis e a assistir às celebrações dos outros hóspedes soberbamente vestidos a gritarem "auguri" (o equivalente a felicidades ou parabéns, em italiano) uns para os outros. Sinto-me como se fosse uma espectadora de um filme do qual passei a fazer parte, mas no qual não consigo de forma alguma sentir-me integrada... Vai mais uma pinacolada?

Já sinto a falta da minha modesta pensão de ambiente familiar, multicultural e multicolor, do som do rádio a passar as notícias nos intervalos da música estilo reggaeton em swahili, da roupa pendurada no estendal depois de ter sido lavada num ritual de grupo, no tanque ao fundo do pátio...

Enquanto estive no resort de luxo, logo após o pequeno-almoço esgueirava-me a correr para a vila. Uma vez comprados os jornais (o "Daily Nation" e o "The Standard"), regressava à minha pensão, onde passava as manhãs debaixo da ventoinha a conversar com o pessoal que ali trabalhava (a Christine, a Josephine e o Mose), sobre os últimos acontecimentos ou a especular sobre o futuro. Por vezes, limitava-ma a estar sentada, em silêncio cúmplice, a observar as pessoas à minha volta a executar tarefas caseiras.

No primeiro dia do ano, os stocks tinham já sofrido um enorme desfalque e os preços de quase todos os bens tinham aumentado. Já sem crédito no meu telemóvel, consegui miraculosamente - graças ao Mose, que durante mais de uma hora procurou em todo o lado - comprar dois cartões de 50 shillings quenianos (SQ) por 70 SQ cada.

Já com crédito, liguei aos meus amigos "mzungos" (homem branco, em swahili) que estão no Quénia a fazer pesquisa para a conservação de espécies de pássaros nas florestas de Taita Hills. Este grupo de três rapazes aventurou-se pelas estradas do Sul do pais para celebrar a passagem de ano em Watamu. Quando lhes liguei, encontravam-se em Malindi, a 15 minutos de distância de carro de Watamu, à procura de combustível. Foram eles quem me informou que o multibanco do Kenyan Commercial Bank (KCB) ainda tinha dinheiro... Sem perder tempo - pois nós, os voluntários, já estávamos quase sem reservas -, corri a apanhar o "matatu" (transporte colectivo) para Malindi. Depois de tratar do que tinha a tratar, juntei-me aos rapazes que se encontravam na interminável fila da única bomba de gasolina que, num raio de centenas de quilómetros, ainda tinha combustível. Ao fim de cerca de três horas de espera, lá chegou a nossa vez. "São 500 SQ", diz o homem da bomba; "se quiser mais, tem de voltar para o fim da fila!" 500 SQ, o equivalente a meia dúzia de litros, foi quanto se gastou para vir de Watamu até Malindi... Desesperados, os meus amigos, sem combustível para regressar a Taita Hills, tentam convencer o homem a vender-lhes mais... Ao que o gasolineiro responde: "Mesmo que quisesse, amigo, agora é que não há nada a fazer: acabei de lhe vender o que restava em stock!"

E assim se passou boa parte do meu primeiro dia deste ano de 2008, atrás de bens que escasseiam no mercado...