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Expresso

Diário do Quénia

Cenário de caos e confusão

No dia 30 de Dezembro, ponto de viragem no processo eleitoral democrático do Quénia, eu encontrava-me em Watamu, com mais oito voluntários. Watamu é uma vila plantada à beira-mar, a cerca de cem quilómetros a Norte de Mombassa, com praias lindas de areia muito branca e fina, águas de múltiplos azuis e verdes decoradas com pequenas ilhas rochosas com formas que fazem lembrar embondeiros.

Nesta vila, de cenário bastante diferente daquele onde vivo e trabalho aqui no Quénia, somos constantemente abordados por pessoas que nos saúdam em italiano... Entre os "ciao" e os "come stai" não conseguimos deixar de questionar se estaremos ainda no Quénia! "Mamma mia"!!!

Foi neste quadro, já por si um tanto surrealista, que me vi arrastada na catadupa de acontecimentos, também surrealistas, que acompanharam os dias seguintes...

Num piscar de olhos, o que seria uma curta pausa no trabalho, para passar uns dias relaxados na praia, deu lugar a um já demasiado longo período de tensões e emoções...

Chovem telefonemas e SMS da minha ONG, bem como de familiares, colegas, amigos e vizinhos em Kidaya, a saberem onde me encontro, como estou e a tentarem obter e trocar informações.

Kibaki, contra todas as expectativas, declara-se Presidente da República, os conflitos emergem e verifica-se uma escalada de violência em muitas partes do país. O medo instala-se e ninguém sabe o que fazer ou pensar.

Estou tão próxima e ao mesmo tempo tão longe destes acontecimentos que ainda me custa alcançar a dimensão do que está a acontecer e das consequências que daí poderiam advir...

Os dias que se seguem parecem compactar-se num só momento de caos e confusão. Ainda tento rever os acontecimentos e separar os momentos, horas e dias. Não consigo - nem sei se alguma vez irei conseguir. Lembro-me de algumas coisas. Lembro-me que rapidamente os stocks de combustível e de cartões de carregamento telefónico se esgotaram, ou então só se conseguiam adquirir a preços bastante mais elevados.

Lembro-me que bens como a farinha de milho, base da alimentação queniana - utilizada para cozinhar "ugali" (uma pasta equivalente ao "funge" angolano) ou uma espécie de crepe conhecida por "chappati" -, passou rapidamente de 50 shillings quenianos para 120. Lembro-me de ver um grupo de pessoas a festejar, ao assistir na televisão, o assassinato de um condutor de "matatu so" (espécie de táxi colectivo), só por ser da etnia Kikuiu e fazer parte da "equipa adversária"...

Lembro-me de dizer a todos - família e amigos -, que estou bem, estou num sítio lindo e seguro. Agora, passados vários dias, não sei se o verbalizava para convencer os outros - ou se para me convencer a mim própria...

Mariana Rosa, em Nairobi