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Expresso

Couve de Bruxelas

Política de rendilhados

Desta vez o assunto é mais pesado: política externa europeia. É como um rendilhado com inúmeros e diferentes pontos. Senão vejamos: a recente mudança de Governo na Polónia não alterou apenas radicalmente a cena interna, mas arrisca-se a provocar também grandes mudanças na própria Europa.   

Para já, está a mudar a relação com a Rússia e vai ter reflexos inevitáveis na política externa europeia (seja o que for que ela ainda é ou será) já que foi a entrada dos países do centro e leste na União e, em particular, da Polónia, que introduziu uma sensibilidade muito diferente no tratamento das questões relativas ao grande vizinho do Leste.

A última notícia é exemplar e vem a propósito dos componentes (10 interceptores) do escudo de defesa anti-míssil que os Estados Unidos querem instalar na Polónia. O anterior Governo polaco disse que sim, mas o novo primeiro-ministro, Donald Tusk, mal foi eleito, deu logo sinais que queria melhorar as relações com a Rússia que, por sua vez, estavam a bloquear o desenvolvimento do relacionamento UE-Rússia.

Tusk disse, nomeadamente, que Varsóvia não devia "apressar-se" em relação a este assunto (uma posição muito próxima de outros países europeus, altamente reticentes sobre a questão), depois o ministro dos Negócios Estrangeiros avançou que a Polónia "não se sente ameaçada pelo Irão" (um dos grandes argumentos americanos para por de pé o escudo) e, finalmente, deixou cair que "não são apenas os benefícios, mas também os riscos que têm de ser discutidos", declarando preto no branco que "não podemos ser nós sozinhos a arcar com os custos".

Agora, o ministro da Defesa polaco foi a Washington. Varsóvia quer elevar o nível dos seus sistemas de defesa aérea, provavelmente acrescentando mísseis Patriot e THAAD. Precisa da colaboração americana. E Washington respondeu-lhe: sim, em troca de um acordo relativamente ao escudo de defesa anti-míssil.

Diplomaticamente, no briefing oficial que se seguiu ao encontro, o porta-voz do Pentágono declarou que "devido à especial relação entre os dois países", acredita que "as diferenças serão ultrapassadas rapidamente". Ninguém, e muito menos nestas áreas, acredita em almoços grátis.

No próximo mês, é a vez do primeiro-ministro polaco ir a Moscovo discutir o assunto.

PS. Já agora, a ver como tudo isto se vai reflectir na República Checa, onde os EUA querem instalar uma base radar no âmbito do mesmo escudo. O Governo agendou o tema para a Primavera, mas as sondagens dizem que 70% da população checa está contra a ideia. E em Novembro, já se sabe, haverá eleições nos EUA. Mudando o inquilino da Casa Branca, se calhar também mudam as ideias.

Luísa Meireles, jornalista