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Cibercidadania

Valorizar a participação online

Graças aos blogues, aos fóruns e zonas de comentário introduzidas por inúmeros jornais e aos fenómenos recentíssimos do social media (Wikipedia, Digg, del.icio.us) em que os cibercidadãos partilham as escolhas – selecção do que é notícia através das massas, um processo sem antecedentes na História –,  a participação do público na definição, redacção e publicação do que interessa aumentou desproporcionadamente nos últimos três anos.

O grande entusiasmo das multidões participantes, inebriadas com um poder de decisão até aqui reservado a uma elite, começou por ser visto com alguma desconfiança nas Redacções. A atitude beligerante de grande parte dos bloggers e comentaristas contribuiu para um clima tenso entre "velhos" e "novos" media. E a crise do modelo económico da Imprensa mais acentuou a desconfiança mútua.

No entanto, o confronto com um público em geral mais atento, melhor informado e educado só pode melhorar a actividade do jornalismo. Embora acarrete desafios. A exigência de rapidez do noticiário contínuo e sujeito à intensa pressão (o escrutínio, que é desejável, acontece menos vezes que o mero exercício opinativo influenciador, quando não destrutivo) do ágil e interveniente público em linha assume proporções dramáticas para o exercício de um actividade que necessita de um tempo mínimo para analisar, pesar, maturar e distinguir o que é importante do que é acessório (ou ruído).

Talvez o maior desafio do online seja, para a Imprensa, conseguir preservar a reputação e níveis de qualidade, que se constroem ao longo de décadas -- ou mesmo séculos, como no caso do The New York Times cujo provedor, Byron Calame, se interrogava há dias sobre a exequibilidade dessa preservação (link).

A proximidade com o público é um dos melhores benefícios da rede. A voz do público é necessária para melhorar o produto jornalístico. É precioso o contributo de cidadãos que nalguns casos possuem informações melhores que as das fontes consultadas pelos jornalistas. A crítica justa, feita em tempo real a uma notícia publicada no Expresso online, pode ajudar a aperfeiçoar a peça a publicar na edição impressa. O olhar treinado do jornalista colhe vantagens do confronto das correntes de opinião que se cruzam numa caixa de comentários.

Estes não são meros exemplos de boas práticas para uma exposição em congressos: para mim, que na última década tenho feito jornalismo na e sobre a Internet com uma proximidade às diversas ciber-tribos e comunidades invulgar num jornalista, são lições do dia a dia. Desde que balizada de forma correcta, que é coisa a que não se tem assistido em Portugal, a voz do público não é mera gritaria para os jornais, como começou por ser para os early-adopters e descuidados (entre os quais, importa que o diga sem temer a auto-crítica, esteve o Expresso).

A questão reside aqui, no descuido. A cibercomunidade do Expresso cresceu entregue a si própria e hoje encontra-se numa posição delicada. O jornal precisa dela, precisa de a fazer aumentar e de a integrar cumprindo os desígnios dos novos tempos, mas precisa primeiro de corrigir os defeitos de comportamento da minoria que se entrincheirou nas caixas de comentários e é – não tenho a mínima dúvida – um obstáculo à evolução de um jornal feito com os leitores.

A cibercidadania traz poderes, mas também responsabilidades. Um dos meus papéis enquanto moderador da cibercomunidade do Expresso é iniciar neste espaço a reflexão e o diálogo sobre os poderes, responsabilidades e comportamentos na rede, e depois criar as condições para o seu cumprimento. Pagam-me para valorizar a edição online do Expresso e é o que vou fazer.

Paulo Querido

jornalista