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Os jornalistas e os blogues

Uma nova vaga de jornalistas está a abrir blogues. Nem sempre pelos melhores motivos, e com equívocos inevitáveis: um blogue não é uma coluna de opinião na net...

Podemos caracterizar a adesão de jornalistas à blogosfera em quatro tipos diferentes, consoante os objectivos e o comportamento que, aliás, correspondem a vagas temporais.

Um escalão aderiu porque de alguma forma se relacionava já com as áreas da tecnologia e da ciência. Neste grupo estão, para citar nomes portugueses, jornalistas como o Pedro Fonseca (free-lancer) ou o António Granado (Público, ver quadro final com links).

Depois, temos os jornalistas do ensino, de professores a estudantes de comunicação. Estes últimos vieram em duas vagas temporais, como veremos mais abaixo. Desde o Fernando Zamith (Lusa, Universidade do Porto) ao Manuel Pinto (Universidade do Minho) à Elisabete Barbosa, passando pelo Luis Santos (U. Minho), mas também pelo João Pedro Pereira, que de estudante passou já a profissional (Público).

O terceiro grupo é o dos early-adopters, como João Paulo Meneses (TSF) e João Morgado Fernandes (DN), entre muitos, muitos outros, de orgãos de informação de Lisboa e Porto, sobretudo, mas também de jornais e rádios da província. É o grupo mais numeroso.

O quarto grupo inclui nomes como Jorge Fiel (aqui no Expresso), Helena Garrido e João Querido Manha. Chegam mais por força da moda e de contratos com instituições do que por convicção pessoal e terão dificuldades de adaptação ao meio -- como tenho visto com o António Martins Neves, a quem vou dando a ajuda que posso.

O que é curioso é que praticamente nenhum jornalista português assume um blogue onde pratique a profissão. Quando muito, os mais aventureiros usam a ferramenta de uma forma complementar a algumas investigações que façam em assuntos específicos.

A vaga inicial ocorreu entre 2002 e 2003, no início do fenómeno dos blogues em Portugal e no mundo. Gente como António Granado (provavelmente o primeiro jornalista português a ter um blogue, ainda que alguns outros tivessem páginas pessoais antes) já usava a Internet e a web com toda a naturalidade para comunicar e informar-se. A adesão à então nova técnica de edição digital em rede era lógica.

Praticamente coincidente no tempo é a segunda vaga, que agrega estudiosos da evolução dos meios e do jornalismo, naturalmente atentos ao fenómeno e a ele aderentes desde logo, com graus de entusiasmo diferenciados. É curioso verificar os trajectos de alguns deles, que divergem a partir de 2005/2006: uns mantêm-se firmes nos projectos iniciais de pesquisa e de relacionamento com a comunidade de professores e alunos, enquanto outros evoluem para o uso da ferramenta de forma profissional, nomeadamente com projectos editoriais associados em regra aos estabelecimentos de ensino.

Ainda dentro deste grupo há um sub-grupo que vem mais tarde, por alturas de 2006/2007. São os estudantes das várias disciplinas de comunicação que fazem da blogosfera um uso mais modernizado, perspectivando já o mercado de trabalho. Muitos sabem, ou intuem, que o futuro profissional passa pelo bom domínio das ferramentas online e avançam por conta própria, uma vez que os currículos universitários ainda não oferecem cadeiras que os instruam na prática da comunicação em rede e no paradigma da pesquisa que substitui o da montra e do prime-time.

A terceira vaga aderiu à blogosfera na altura em que esta possuía um maior apelo de charme: 2004/2005. A grande maioria não estava nada à vontade com as tecnologias mas superou essa barreira, que afinal não era tão grande: os processos de edição do Blogger, em especial, e dos outros editores em geral são simples de entender e com um pouco de tempo e ajuda até se consegue editar a coluna dos links -- ou pelo menos copiá-la de outro blogue, razão pela qual existem tantas blogrolls iguais datadas desse tempo, com níveis de blogues desactivados ou mesmo "mortos" hoje elevadíssimos.

Nesta vaga contam-se jornalistas mais conhecidos e menos conhecidos, muitos deles fora dos maiores centros urbanos. Os principais denomimadores: textos pessoais e muito comentário político e de actualidade, pouca profundidade (sugerindo que o blogue é mais uma válvula de escape para o dia a dia na Redacção e menos um instrumento levado a sério).

A quarta vaga é mais problemática. Por um lado, chega à blogosfera tarde, o que é mau: os terrenos estão ocupados, as listas feitas, os partidos tomados, os grupos desenhados. É muitíssimo mais difícil, hoje, impor um blogue do que era em 2004, quando bastava abrir a loja e cem ou duzentos entusiastas davam as boas vindas, em cascata de links que se prolongava às vezes por mais de uma semana. Em 2007 abrir um blogue envolve uma estratégia de promoção que vai desde o SEO (search engine optimization, conjunto de boas práticas que ajuda a surgir melhor posicionado nas pesquisas nos motores de busca, mas com o qual é preciso cuidado para não obter um efeito contrário) à citação recorrente de outros blogues, na esperança de provocar um visita de curiosidade e um link de volta. E, em muitos casos, ao investimento em publicidade!

Por outro, estes novos autores "blogam" sem convicção íntima, parecendo mais empurrados para a função por via da modernização de que os títulos precisam urgentemente, ou por portais que chegaram atrasados à web das multidões, para onde fugiram as suas audiências de ontem, e agora pagam para recuperar o tempo perdido.

Uns adaptam-se e rapidamente descobrem, com o auxílio de comunidades que praticamente lhes fazem o trabalho de social networking, que um blogue não é uma coluna de opinião com leitores, mas um exercício de diálogo com um conjunto de "co-autores", na prática. Repare-se no sucesso da Roupa para lavar.

Mas nem todos são o Jorge Fiel e as suas temáticas, digamos, populares, ou o António Martins Neves e o Fernando Peixeiro (Lusa, ambos), com a sua interessante correspondência transatlântica. A maioria fará uma travessia do deserto até descobrir que o peso da marca (pessoal ou do título) é muito menor nesta ecologia específica. Alicerçado na observação de alguns desaires americanos e ingleses, suspeito que muitos serão de todo em todo incapazes de "descer" ao nível da rua digital, mantendo a rigidez vertical típica da era emissor-receptor.

A blogosfera já foi um meio "macio". Hoje, porém, a fortíssima concorrência, a ocupação de espaços e a inércia e cansaço da parte activa da comunidade torna muito duro e moroso construir um projecto a partir do zero. É claro que ter por detrás o apoio de uma marca forte como o Expresso, ou de bolsos cheios como o Sapo e o IOL, ajuda bastante. Mas não é uma garantia: há mais dúvidas que certezas sobre as suas hipóteses de se estabelecerem.

A certeza que tenho, sem margem para dúvidas, é que as respectivas qualidades de análise e de escrita vêm enriquecer um meio onde se nota já alguma erosão, compreensível quer pelo cansaço dos mais antigos, quer pela quantidade astronómica de novos blogues sem valor que poluem hoje o circuito técnico sem o qual seria impossível seguir a publicação reticular (refiro-me aos motores de busca e agregadores).

Fica abaixo um quadro para ponto de partida, com função de exemplo e sem pretensões de exaustivo e do qual naturalmente excluo os blogues do Expresso. Aguardo contributos para enriquecer a lista, em especial no que toca ao recenseamento da quarta vaga. Aqui nos comentários ou por e-mail para paulo.querido@gmail.com. Se algum leitor dispuser de uma lista mais completa, o que é provável, cá a aguardamos!

primeira vaga António Granado (Público): Ponto Media

Fernando Zamith (Lusa): JornalismoPortoNet Weblog

Pedro Fonseca (à altura no Público): ContraFactos & Argumentos e, mais tarde, VideosAver





segunda vaga Luís Santos (Univ. Minho): Atrium - Media e Cidadania

João Paulo Meneses (TSF): Blogouve-se

João Pedro Pereira (Público): Engrenagem

Eugénio Queirós: Bola na área

João Morgado Fernandes: still kissin'





terceira vaga Hélder Bastos: Travessias Digitais

Luis Carvalho: instante fatal

Paulo Nuno Vicente: chão de papel





quarta vaga Helena Garrido: Visto da economia

António Martins Neves e Fernando Peixeiro: Atlântico expresso

João Querido Manha: Zona de ataque





Paulo Querido, jornalista