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Expresso

Cibercidadania

Algo vai bem no domínio da Dinamarca

Basta passear pelo centro de Copenhaga para perceber que algo vai bem no domínio dinamarquês. O café da esquina ostenta na montra o seu endereço cafe.dk. As bicicletas passam com o logotipo bicicleta.dk. Com metade da população de Portugal, a Dinamarca tem o dobro ou triplo da presença em linha.

A cibercidadania é em primeiro lugar uma questão de acessibilidade. Uma questão quantitativa. Básica. Sem a garantia da acessibilidade genérica e universal, os planos para aproximar o cidadão da vida pública, melhorar a sua relação com o aparelho do Estado e a participação democrática, não passarão do plano das intenções. Louváveis - mas espúrias.

Os portugueses falam, os dinamarqueses fazem.

Dou comigo a pensar nestes aspectos básicos enquanto percorro as ruas do centro de Copenhaga, a capital dinamarquesa, onde me desloco numa viagem de prazer. Entrecortada com alguma actividade profissional, graças à web e ao teletrabalho (e ao acesso gratuito no hotel, com espanto da recepcionista quando perguntei pelo preço, mal habituado pelas "promoções" da PT que ainda vamos tendo).

Na Dinamarca a Internet é um dado e um hábito adquiridos. Reproduzido abaixo, o gráfico que elaborei elucida bem as diferenças, representadas em items escolhidos ao acaso da lembrança; não procurei elementos sobre o e-gov, onde julgo que as diferenças já encurtaram por via do esforço da administração portuguesa nos últimos três ou quatro anos. Mas o e-gov não é tudo -- o e-gov não é nada, excepto alguma poupança para o Estado, sem uma população bem relacionada com a rede. E a população portuguesa fala muito ao telefone, mas faz pouco na Internet.

Faz tão pouco que se dividirmos o número de páginas inscritas na hierarquia .pt pela população, cada português "fez" uma página -- contra três páginas e meia por cada dinamarquês.

Fica difícil manter a seriedade quando o preço de registo anual de um domínio .pt é quatro vezes superior ao preço de um registo em .dk -- longe de ser o único, é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento de conteúdos e de serviços em Portugal, um país de burocratas onde um arquitecto chamado João Meireles, com uma empresa unipessoal com o seu nome e website no domínio joaomeireles.pt, teve de ir a correr ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial registar a marca jmarquitectos para não perder o dinheiro já esportulado pelo domínio jmarquitectos.pt, (nomes falsos para uma situação real que acompanhei ao longo da última semana; segundo as regras, a FCCN não devolve o dinheiro e é "por favor" que admite fazer ou uma mudança para a hierarquia com.pt, ou aguentar o processo para além dos três dias da praxe, enquanto o incauto arranja uma solução).

Nas ruas de Copenhaga estamos rodeados de comunicação web. É rara a loja que não possui o seu próprio endereço .dk. Mesmo que seja uma loja de vão de escada, e há-as às centenas. É "bem" estar em .dk, é um incentivo à participação, é um convite aos clientes. É a marca de uma diferença de atitude.

Paulo Querido, jornalista e moderador da cibercomunidade