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Expresso

A Caminho

Quando as línguas se encontram

Sento-me na gravilha. Ao meu lado só o Pitchi, o nosso esquecido pastor-alemão.

Está escuro. Está silêncio. Está. Só. Só a luz do portão está acesa. E a que ilumina o Fusca.

Assim me sinto por dentro. Só iluminado em um ou outro beco mais recôndito.

É meia-noite. "O que é que cê está fazendo aí?" Pensando.

A pick-up saiu agora uma vez mais. Eu fechei o portão depois da sua passagem. Lá dentro vai o Henrique. Não volta mais.

Na hora em que a equipa que me acolheu volta a ser desmembrada, sento-me e penso. Simplesmente pensando.

Os últimos dias têm sido frenéticos. O tempo para escrever escasseia. A máquina fotográfica acumula humidade. As palavras não correm quando chego a casa. Só me apetece tomar banho e deitar. A meio da noite lembro-me, da pior maneira, de que a rede mosquiteira teria sido boa ideia também.

Nos últimos dias tenho percebido como é importante comunicar. No domingo fomos a Petrópolis com alguns dos adolescentes. Eles gostaram bastante. Nós também. É bom saírem daqui. Deste mundo onde as raízes sociais crescem mas não perfuram o solo. Ver algo diferente (lembro o sotaque nordestino do Henrique... difêrênti e não djifêrêntchi).

No restaurante sento-me com três voluntárias novas. Todas estado-unidenses (como sabiamente nos ensina o Castelhano, contrariando a presunção dos que se dizem "americanos"). Estamos num buffet. Um self-service. Como tanto gostam os estado-unidenses, um all you can eat. Elas acabam o primeiro prato e em sintonia levantam-se para ir buscar mais comida. "Esperem, esqueceram-se dos pratos" penso. Não. Sorrio. Não se esqueceram. Foi propositado. É assim que se faz nos Estados Unidos, por uma questão de higiene, dizem. Elas, por mero acaso, não tiveram uma referência cultural e fizeram as coisas como lhes foi natural. Digo-lhes "como se faz" quando voltam. A boa disposição oblitera qualquer possível desconforto deste pequeno choque cultural

Volto à noite em que o Henrique partiu. Sentado olho a imagem que me acalma os nervos ópticos. Uma luz suave que banha o carocha. Vejo o sorriso do Henrique que se despede. Não, Coimbra não tem mais encanto na hora da despedida. Tem sim nas horas que se passam lá. Vejo o quão pouco tempo ficamos. Eu já vou a mais de meio da minha travessia aqui e não me imagino a fazer um quinto do que fiz, não fosse a Língua Portuguesa a minha mais poderosa arma. Mesmo sendo a que tem "c" mudo em proactividade e "h" em humidade tropical.

Falando naveguei até onde estou. Os olhos de um dos fundadores olharam-me hoje, reconhecendo o meu mérito e dizendo: "Bom trabalho. Continua assim."

Sim vou continuar. Pode assinar aqui? É para as aulas de alfabetização dos adultos da comunidade.

Obrigado. Até amanhã.

Abro a tampa do telemóvel. "Carona de ônibus para Foz do Iguaçu? Ok. Para que dia? Óptimo! Jóia! Até lá tenho muito trabalho nas mãos. Valeu mêrmão! Falou!" Fecho o telemóvel. Hora de dormir. Amanhã tenho reunião com o vereador às 8. A ver se desta vez consigo acordar a horas.

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