Siga-nos

Perfil

Expresso

A Tempo e a Desmodo

Servidão fiscal

Em Portugal, existe um complexo católico contra o dinheiro. "Falar de dinheiro é feio", dizem. É por isso que nunca se fala a sério de impostos. "Aquele que fala de impostos é um economicista insensível", dizem.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

I. Mesmo sem o recente aumento de impostos, Portugal já tinha uma das mais altas cargas fiscais da Europa. É bom lembrar que Portugal, por exemplo, é o campeão europeu dos impostos indirectos. Nós passamos 133 dias por ano a pagar os nossos impostos. Ou seja, só a partir de 14 de Maio é que nós começamos a ganhar para nós próprios. Entre 1 de Janeiro e 13 de Maio, não passamos de pequenos escravos fiscais do Estado. Mas, atenção, não se pode falar disso. É falta de educação falar de dinheiro à mesa. É falta de educação dizer que os portugueses têm uma taxa de esforço fiscal 65% acima da média comunitária (segundo o fiscalista Tiago Caiado Guerreiro).

II. Perante nova crise, Sócrates recorreu ao instrumento do costume: a máquina fiscal que oprime a sociedade com 133 dias (ou já serão 140?) de trabalho-para-o-estado. Cortar na despesa do Estado? Nem pensar. Isso seria entrar no terreno dos "economicistas insensíveis" - a tradução ideológica do "não se fala de dinheiro à mesa". Como costuma dizer Tiago Caiado Guerreiro, o Estado está cada mais rico e cheio de vícios, enquanto a sociedade está cada vez mais pobre e oprimida por esta servidão fiscal.