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A Tempo e a Desmodo

Passos Coelho e os reformados

Passos Coelho tem coragem, mas é pouco inteligente. Ao invés da camarilha que nos governou e que nos comentou até à crise, o pm mais penteadinho da história não foge dos problemas do país. Ele olha mesmo para os elefantes que estão na sala. Mas, para mal dos seus pecados, Passos Coelho não é um domador de elefantes. Ele quer muito subir para cima deles, mas não tem jeiteira. Coragem não é sinónimo de inteligência. Para ilustrarmos este abismo entre bravura e neurónio, só precisamos de olhar para um assunto que vai continuar a marcar a nossa vida nas próximas décadas: a insustentabilidade da segurança social (SS).

Passos tem razão quando aponta o dedo para essa insustentabilidade e para a injustiça geracional que está no coração da SS. Mas a qualidade do discurso político depende da forma como se aponta o dedo e, já agora, do dedo escolhido. Passos disse qualquer coisa como "os reformados estão a receber mais do que aquilo que descontaram". Esta é a forma errada de encarar o problema, porque dá a ideia de que os reformados estão a enganar o sistema. Sim, é verdade que os mais novos são os grandes prejudicados, mas os actuais reformados também foram enganados. A insustentabilidade do sistema não resulta da malandrice de quem está reformado, mas da própria falência demográfica do país. Não é uma questão de agência, mas sim de estrutura. O sistema tem de mudar, porque é demograficamente insustentável, porque só funciona de forma justa na presença de uma pirâmide demográfica. Mas, ó Henrique, não existem pessoas que recebem muito acima do que descontaram, sobretudo na CGA? Provavelmente. Mas isso não resulta da malandrice das pessoas. O problema é a lógica insustentável do próprio sistema.

Se quer apontar o dedo aos culpados, Passos devia criticar o regime que defendeu e ainda defende uma SS insustentável e injusta. Sim, as reformas mais altas (cerca de 10% do conjunto) devem ser cortadas de forma permanente, mas o Poder não deve ter um discurso anti-reformados. Passos devia, isso sim, apontar baterias contra os políticos, jornalistas e comentadores que durante a última década recusaram qualquer debate sobre a SS. Os verdadeiros culpados são todos aqueles que gritavam "não à privatização da SS" assim que a conversa começava. A insustentabilidade da SS era uma invenção dos "neoliberais", esses gambozinos tão convenientes, e não uma realidade factual. Era não era?