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Expresso

A Tempo e a Desmodo

Livros da Década (II)

Eu não sou o Prof. Marcelo, ou seja, não tenho a capacidade semi-mágica de ler tudo. Esta é só a "minha" escolha.

20.º: Pierre Manent, "A Razão das Nações - Reflexões sobre a Democracia na Europa", Edições 70, 2008.

Pierre Manent é o actual herdeiro do liberalismo clássico francês de Montesquieu, Tocqueville, Bertrand de Jouvenel e Raymond Aron. Neste pequeno grande ensaio, Manent critica a forma como a UE está a trair a ideia de democracia. Ao criar a falácia da democracia pós-nacional ou pós-estado, o "europeísmo" está a destruir as bases da democracia constitucional. Porque a democracia necessita sempre de um invólucro: o Estado. Tal como Roger Scruton, Manent recorda que o republicanismo kantiano não existe sem a estrutura do estado weberiano. Fomentar-se o confronto "Estado versus Democracia" é um hábito idiota. A democracia só pode existir dentro dos estados. A democracia não existe no mundo gasoso da "integração europeia".

19.º: Barack Obama, "A Audácia da Esperança", Casa das Letras, 2007.

Barack Obama oficializou o declínio da Europa nas percepções estratégicas e diplomáticas de Washington. Na primeira viagem como secretária de estado, Hillary Clinton viajou na direcção da Ásia, e não na direcção da Europa. Eis uma ruptura diplomática histórica produzida por Obama. Em Copenhaga, Obama desprezou a UE e negociou com os estados emergentes (China, Índia, Brasil, África do Sul). Ora, isto só pode surpreender aqueles que nunca leram os discursos e os livros de Obama (os europeus amaram, mas não leram Obama). O capítulo de política externa deste livro revela um homem que tem uma mentalidade "transpacífica". O mundo de Obama está centrado no Pacífico e não no Atlântico. Os europeus devem esquecer o "obamismo", e devem começar a ler Obama com rigor analítico e sem furor litúrgico.

18.º: Rui Ramos, "D. Carlos", Círculo de Leitores, 2006.

A prova de que a história também é literatura. A elegância clássica da escrita de Rui Ramos faz lembrar, precisamente, os grandes historiadores "literários" dos séculos XVIII e XIX. Com esta elegância estilística, Rui Ramos escreveu um livro de ruptura dentro da historiografia portuguesa. "D. Carlos" desmonta a propaganda que revolucionários jacobinos e reaccionários salazaristas lançaram sobre a Monarquia Liberal. A normalidade liberal portuguesa (1851-1910) foi uma época de liberdade, e não de opressão. Ao contrário do que reza o mito vigente, a luz (I República) não veio substituir as trevas (a Monarquia). Podemos até dizer que um regime livre, a Monarquia de D. Carlos, foi substituído por dois regimes autoritários: a I República e o Estado Novo.

17.º: Tabajara Ruas, "Netto perde sua alma", Âmbar, 2003 [2001].

Um romance fabuloso de um frenético romancista gaúcho. A narrativa gira em torno de António de Souza e Netto, aristocrata galante e guerreiro do Rio Grande do Sul. Através da "estória" de Netto, Tabajara Ruas conta a História das guerras e revoluções que marcaram o Brasil durante o século XIX. Com uma escrita seca e concisa, feita com balança e cinzel ("tino comercial", "intimidade tácita"), Tabajara Ruas transporta-nos para um passado épico, feito por homens que tinham na honra o seu único bem. Não há nada como um guerreiro para nos lembrar que a consciência, "essa puta", está antes da política.

16.º: Pedro Lains e Álvaro Ferreira da Silva (org.), "História Económica de Portugal - O Século XX", ICS, 2005.

Um monumento. Este livro recolhe ensaios de inúmeros historiadores que põem em causa mitos vigentes. Por exemplo, toda a gente afirma que o Estado Novo só provocou pobreza. Este livro desmente esse lugar comum. O período de maior crescimento da história portuguesa ocorreu entre 1950 e 1973. O Estado Novo não era um regime legítimo do ponto de vista político, mas foi eficaz do ponto de vista económico. Este dado económico, atenção, não transforma o Estado Novo num regime político aceitável. Porém, não podemos fingir que 1950-1973 não existiu economicamente.

15.º: A. B. Kotter, "Bilhetes de Colares", Independente, 2004.

Um dos melhores escritores portugueses é o cronista A. B. Kotter, um pseudónimo de José Cutileiro. Com a mesma escrita elegante das suas crónicas sobre política internacional, Cutileiro cria aqui uma atmosfera única. Esta atmosfera "cutileiriana" ajuda-nos a perceber Portugal. Ou melhor: ajuda-nos a rir de Portugal. Kotter é um inglês que foi generosamente acolhido em Portugal. E este inglês "adoptado" é a placa giratória de outras personagens magníficas, a começar pelo seu "criado" (e tradutor das crónicas), um ex-comando que combateu no ultramar. Mas a melhor personagem é mesmo a mãe de Kotter, uma fascista empedernida que lança os melhores aforismos sobre os portugueses. Um livro imperdível.

14.º: Hirsi Ali, "Uma Mulher Rebelde", Editorial Presença, 2007.

O livro-chave sobre o politicamente correcto. Hirsi Ali (holandesa de origem somali) conta aqui a sua vida. Fugiu das trevas islâmicas. Refugiou-se na Holanda. Ingressou na esquerda holandesa. Depois do 11 de Setembro, Hirsi Ali começou a avisar os holandeses sobre dois factos: (1) o Islão está submerso numa cultura que nega os valores da tolerância; (2) o multiculturalismo holandês, ao recusar integrar as comunidades islâmicas, estava a criar quintas colunas que negam os direitos das mulheres e dos homossexuais. Os colegas de Hirsi Ali criticaram estas posições porque eram "direitistas". Se defender os direitos das mulheres muçulmanas era sinónimo de direita, pois muito bem, Hirsi Ali deixou os trabalhistas e juntou-se aos liberais. Porque não é aceitável, diz-nos, elevar "culturas beatas e misóginas para um plano de opções de vida aceitáveis e respeitáveis".

13.º: Harry Jaffa, "A New Birth of Freedom - Abraham Lincoln and the Coming of the Civil War", Rowman & Littlefield, 2000.

Depois de Tocqueville, não há melhor sobre a história americana. Harry Jaffa aborda o coração dos EUA, o pensamento de Abraham Lincoln. Perante a questão da escravatura e perante a rebelião do Sul, Lincoln afirmou duas coisas: (1) os americanos não podiam acreditar na verdade auto-evidente ("all men are created equal"), e, ao mesmo tempo, fomentar a escravatura. "If slavery is not wrong, nothing is wrong". (2) Em assuntos fundamentais, a Constituição federal tinha poder de veto sobre os diferentes estados da União. Ao contrário do que pretendia o sulista Stephen A. Douglas, a questão da escravatura não podia ser decidida ao nível de cada estado, mas sim ao nível federal. Dentro de uma civilização que respeita o direito natural, a escravatura é uma questão ética resolvida à partida e não tem discussão eleitoral. Ao manter estes princípios, ao vencer a Guerra Civil, Lincoln destruiu uma possível ideia de América: a América enquanto império branco, baseada num relativismo historicista e racista. Segundo Harry Jaffa, este relativismo dos confederados fazia parte da mesma corrente que culminou no nazismo e o comunismo no outro lado do Atlântico.

12.º: Sebald, "História Natural da Destruição", Teorema, 2006.

Uma pequena batota: a versão original é de 1999. Mas é uma batota que vale a pena. Porque este é um dos grandes ensaios do nosso tempo. "História Natural da Destruição" garante-nos a entrada na complicada memória alemã. Sebald critica a forma como os intelectuais germânicos evitaram falar dos bombardeamentos aliados que transformaram a Alemanha num parque de estacionamento pós-apocalíptico. O livro não diaboliza os aliados, nem vitimiza os alemães. A intenção de Sebald é outra: criticar a forma como a Alemanha escolheu a amnésia histórica como via de salvação.

11.º: John Sudgen, "Nelson - A Dream of Glory", Jonathan Cape, 2004.

O livro definitivo sobre Horatio Nelson, o Churchill do século XIX. Um dos livros definitivos sobre um período histórico fundamental (final do século XVIII e início do século XIX). Através das batalhas navais de Nelson, John Sudgen traça o perfil moral e político desta época que conheceu a revolução americana e as guerras napoleónicas. Entre muitas outras coisas, compreendemos aqui a forma como a Grã-Bretanha precisou da França para construir a sua própria identidade (a Grã-Bretanha definiu-se como anti-França). E vice-versa: a França autodefiniu-se enquanto némesis da Grã-Bretanha.