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Expresso

A Tempo e a Desmodo

É oficial: a função pública é uma vaca sagrada

A Irlanda e Espanha cortaram os salários da função pública. Portugal vai aumentar impostos. Nesta terra, há os 'filhos' (funcionários públicos) e os 'enteados' (os outros).

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

I. No final do ano passado, a Irlanda anunciou um corte de 10% nos salários da função pública. Ontem, a Espanha anunciou um corte de 5% no funcionalismo público. Irlandeses e espanhóis tiveram a coragem para encarar o problema de frente, ou seja, atacaram a despesa. O que vai fazer Portugal? Vai aumentar a receita através de um novo aumento de impostos, patrocinado por PS e PSD (boa, Passos, boa). Este Bloco Central informal não tem coragem para enfrentar o maior problema do país: a rigidez das despesas com o pessoal do Estado.

II. Já aqui disse que Portugal só vai sair do buraco quando encontrar um pouco de coragem irlandesa. Essa coragem vai chegar. Resta saber se será uma coragem endógena (made in Portugal) ou exógena (made in FMI e UE). Os salários e direitos da função pública não podem continuar a ser vistos como uma despesa intocável e não-flexível. Esse tempo acabou. Se Portugal não perceber isso por si próprio, a UE e o FMI não deixarão de sentar Portugal no banco da escola.

III. Para já, uma coisa é certa: os funcionários públicos portugueses são os únicos cidadãos europeus que estão autorizados a viver numa bolha fictícia, fora da realidade e à margem da crise que varre o país e a Europa. A mensagem de Sócrates e Passos é uma desilusão para quem acredita que Portugal é capaz de se autogovernar: a sociedade (os enteados) que trate da realidade, porque a nossa função pública (os filhos) tem de continuar na ficção dos direitos adquiridos.