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Dispensar 100 mil funcionários públicos?

Na Grã-Bretanha, "The Economist" diz que o Governo britânico precisa de dispensar 400 mil funcionários públicos. Em Portugal, o que aconteceria se o Expresso afirmasse que o Estado precisa de dispensar 100 mil funcionários públicos?

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

I. Os portugueses têm um problema sério com a realidade. Os políticos, por norma, preocupam-se apenas com a bondade intrínseca das benesses que dão à população. E a população aceita as benesses sem nunca fazer as perguntas da prudência: "mas isto não vai aumentar os impostos?", "e aquilo não será pago pela geração do meu filho?". Depois, quando alguém aponta o dedo para a dura realidade, políticos e população atacam esse dedo, isto é, não enfrentam o mal; apenas insultam os mensageiros do mal.

II. "The Economist" fez um exame duro à realidade britânica, e propôs as medidas que a realidade exige. Para começar, defendeu o óbvio: o problema resolve-se com cortes na despesa do Estado e não com aumento de impostos. Aliás, esta foi a posição da maioria dos governos europeus. Mas o que fez o Governo português? Aumentou de forma ilegal os impostos.

III. Nos cortes, "The Economist" defendeu uma diminuição da despesa na saúde (sobretudo na forma como o Estado "apaparica" os médicos) e uma reforma profunda ao nível das pensões. Porquê? Porque o aumento da esperança média de vida e a pirâmide demográfica invertida tornaram insuportáveis os gastos com a saúde e com as reformas.

IV. E, acima de tudo, "The Economist" defendeu uma redução enorme na despesa com o funcionalismo público, até porque lá - como cá - o funcionário público tem sempre melhores salários (e pensões) do que o trabalhador do sector privado. Neste sentido, a revista afirmou que cerca de 400 mil postos na função pública devem ser anulados. Ora, na Grã-Bretanha, esta opinião é uma opinião, e não causou - que se saiba - um tumulto. Agora imaginem que o Expresso fazia um editorial semelhante, no qual pedia a redução de 100 mil funcionários públicos? Como é óbvio, cairia o Carmo e a Trindade, não faltariam as promessas de boicote às vendas do jornal por parte dos senhores dos 'direitos adquiridos'. Na Grã-Bretanha, há uma humildade perante a realidade. Em Portugal, há uma arrogância intrínseca que despreza a realidade. Os portugueses acham que a esperança é um substituto do realismo.