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Expresso

A Tempo e a Desmodo

Camilo ainda explica o ódio a Cavaco

Mergulhados nesta agitação permanente, vamos esquecendo o que está antes do PIB, da dívida, do Euro e demais bugigangas do economês, vamos esquecendo que um país, antes de ser um PIB aflito, é uma memória. Não, isto não é conversa da treta, não é lamechice a pingar no abstracto. Dou já dois exemplos concretos. Primeiro, poucos ficaram incomodados com o fim do feriado de 1 de Dezembro, um factor de unidade histórica, ao invés do 5 de Outubro. Segundo, o desaparecimento de Camilo Castelo Branco das escolas também não causou ondas. E, confesso, este desprezo por Camilo não me passa pelo estreito. Alguém decidiu que o grande escritor português não cabia no ensino da língua portuguesa e, na resposta, não houve uma Maria da Fonte literária a varrer a nação. O que fazer perante este silêncio? Bom, é continuar a escrever sobre Camilo, é continuar a dizer que os livros de Camilo têm a beleza das coisas inúteis, é continuar a dizer que os seus romances ainda explicam muita coisa. 

Neste Os Brilhantes do Brasileiro, por exemplo, o bardo de Seide oferece-nos uma das suas mulheres terminais, uma daquelas nortenhas vai-ou-racha: Ângela de Noronha de Barbosa. Filha de general aristocrata, Ângela é cortejada por Hermenegildo, "brasileiro" rico que lhe oferece um coral de diamantes como presente de noivado. Mas, claro, Ângela está apaixonada por Francisco, um "mal-nascido" filho de cozinheiro e, quando Francisco precisa de dinheiro para ir estudar medicina, Ângela transforma o seu colar numa bolsa da FCT. Quando esta jogada financeiro-amorosa é descoberta, Ângela morre socialmente, porque naquelas cabeças ela está a cometer uma espécie de pré-adultério. A honra macha do seu noivo (o pré-cornudo) e do seu pai está comprometida. Ângela acaba no convento, a sala de pânico da honra familiar. O resto fica para o leitor descobrir.   

A par da estória assente na típica heróina camiliana, Os Brilhantes do Brasileiro tem muita História. Por portas travessas, Camilo foi um grande historiador. Para começar, temos o impacto do "brasileiro" na sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX. O "brasileiro" era o emigrante que regressava do Brasil, abalando a nossa sociedade com o seu dinheiro e com a sua moral tropicalizada. O impacto social desta figura de Oitocentos deve ter sido semelhante ao impacto do "emigrante" e do "retornado" no século XX. A par do "brasileiro", Camilo oferece-nos a figura da beata que deixa fortunas ao padre para que este lhe edifique um T2 lá no céu. Mas, ao lado, também vemos personagens que deixam antever um desprezo pela religião na sociedade portuguesa ("compadre, a religião é uma patranha"). A outro nível, encontramos a cicatriz camiliana da "onda revolucionária" francesa e da posterior guerra civil. Para terminar, podemos ainda observar as entranhas de uma rigidez social que, bem vistas as coisas, chegou até nós. D. Beatriz, a guardiã da hierarquia, diz que a filha de "Simão de Noronha", o "décimo oitavo senhor do Paço de Gondomar", não pode estar apaixonada pelo "neto do cozinheiro"; essa relação é um "insulto" a uma "das mais distintas famílias". Quando lemos as memórias de Alçada Baptista, por exemplo, percebemos que esta snobeira chegou intacta ao século XX. Aliás, ainda mexe no século XXI: é só olhar para a repulsa que muita gente sente por um certo filho de um gasolineiro de Boliqueime.

 

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