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A Tempo e a Desmodo

A poupança passa pela lei das rendas

Os banqueiros têm de perceber uma coisa: não há poupança num país preso no crédito à habitação. A ausência de um mercado de arrendamento criou uma dívida bruta de 215% do PIB.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

I. Faria de Oliveira, líder da CGD, é claro: o problema de Portugal "é o consumismo exagerado" visível "no número de casas próprias, de carros de família, de férias no estrangeiro, de refeições em restaurantes". De seguida, Faria de Oliveira diz que, perante estes factos (que criam uma dívida bruta de 215%), os portugueses têm de mudar "radicalmente de vida". No fundo, os banqueiros vieram dizer que é preciso uma mudança de mentalidades em Portugal. Óptimo.

II. Só que há aqui um buraco no raciocínio dos banqueiros: o vício do crédito não é apenas uma questão de mentalidade. É também uma questão de necessidade: em Portugal, "ter casa" é sinónimo de "crédito à habitação". Isto porque Portugal é o único país - deste e do outro mundo - sem um mercado de arrendamento normal. A lei das rendas de Salazar continua por aí, e essa permanência destruiu o mercado de arrendamento. Se eu fosse senhorio, também deixaria os meus prédios cair de podres, porque essa coisa de receber 15 euros por um andar no centro de Lisboa é um roubo nojento.

III. Os bancos portugueses, durante décadas, conviveram muito bem com a ideia de actuarem num país sem mercado de arrendamento e, por arrastamento, viciado no crédito à habitação. Agora, meus caros banqueiros, passa-se o seguinte: se querem poupança, então, façam lóbi para acabarmos, de uma vez por todas, com a lei mais estúpida deste e do outro mundo: a lei das rendas de Salazar, que continua activa em 2010.

IV. A "casa própria" não era uma mania de grandeza, não era sinal de novo-riquismo. Era o único caminho para se sair de casa dos país.