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Expresso

A Tempo e a Desmodo

A pedofilia dos padres começa no celibato?

A preguiça também ataca os grandes. Arnaldo Jabor diz que a pedofilia do clero é provocada pelo celibato. Invocando a sua experiência de ex-aluno de colégio religioso, o grande cronista brasileiro utiliza o arquétipo do mal-amado (para usar um eufemismo publicável) na descrição do carácter dos padres: sufocados pelo prazer reprimido, martirizados pela presença decotada e insinuante das mães dos alunos, os padres desforram-se nos lábios inocentes dos benjamins. A tese é popular, e até tem aquela marca do "está na cara, pô". Mas a popularidade nunca deu razão a ninguém.

Por que razão um pai, casado e habitué da cama da mulher, abusa da filha? Por que razão um padrasto, casado e devorador de ancas roliças, abusa do enteado raquítico? Por que razão o tio, o primo e o amigo dos pais abusam da sobrinha, da prima mais nova, da filha dos amigos? Já perceberam, não já? Homens libertos da prisão do celibato abusam de menores quando a oportunidade surge. Ou seja, não existe uma correlação inquestionável entre celibato e pedofilia. A pedofilia é uma sacanice que não depende da ausência ou presença do cinto de castidade.

Mas, apesar de estar errado no caminho, Jabor tem razão na meta final: os padres deviam ter a possibilidade de casar. A "teologia da libertação sexual" faz sentido até para muitos padres. E, para justificar o fim do celibato, não temos de entrar nas teses materialistas de Jabor. Só temos de sentir esta evidência: obrigar um homem a deixar o sacerdócio só porque se apaixonou por uma mulher não é só um erro. É um pecado. No meu modesto sentir de ovelha tresmalhada, a Igreja só tinha a ganhar se colocasse ponto final no celibato obrigatório. Aliás, esta mentira radical é uma das causas da minha tresmalhice teológica. É difícil confiar num pastor sem mulher, até porque Pedro era casado.