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A imortalidade cabe numa placa USB?

Na revista do Expresso, Jorge Calado escreveu um ensaio muito interessante sobre Kubrick e o “2001 – Odisseia no Espaço”, que comemora este ano meio século de assombração. Tal como Calado, perdi a conta ao número de vezes que vi o filme. Ao contrário de Calado, não tenho a certeza sobre a humanidade de HAL. “O filme de Kubrick”, diz Calado, “sugere a evolução do homem e da mulher de seres biológicos para máquinas perfeitas e imortais, e destas para uma ideia de energia pura (onde alguns verão uma aproximação a Deus)”. Eu sou um destes “alguns” filiados em Dante que reconhecem a ideia de paraíso na energia pura. O filme sugere, parece-me, uma comunicação entre homem e Deus que é incompreensível para a máquina, pois é feita numa linguagem simbólica que vai além do algoritmo e da própria gramática. O ensaio de Cormac McCarthy sobre linguagem, "O problema de Kekulé" (revista Nautilus), ajuda neste ponto.

A ideia de Calado é porém interessante e tem seguidores. Num dos inúmeros canais de filmes, anda a passar um obscuro telefilme britânico chamado “The Machine” (2013). Tem um aspeto quase amador, mas segue uma ideia atraente: e se nós encontrarmos a imortalidade na forma de um programa de computador? Ou seja, e se conseguirmos isolar aquilo que nos define, memória e consciência, e transferirmos essa identidade subjetiva para uma placa USB como qualquer outro ficheiro? Neste caso, a imortalidade é apenas espiritual e está sempre aprisionada num computador como um génio na lâmpada. Parece-me mais maldição e não uma bênção. E então se a consciência contida na placa USB for colocada ao comando de outro corpo (mecânico, híbrido, clone) após a morte do nosso corpo inicial? Neste caso, somos um cyborg em tudo idêntico ao elfo: seres imortais no sentido em que somos imunes à doença e à velhice; contudo, não deixamos de estar sujeitos às leis da física, isto é, o corpo e os chips que contêm a nossa consciência podem ser destruídos. Sem a lâmpada, não há génio.

Seremos obrigados a discutir estas questões na realidade? É o mais certo. Seja como for, é sempre curioso ver como os autores que pensam o futuro através da ficção científica (Kubrick, Ridley Scott) esboçam cenas e personagens parecidas àquelas que são criadas pelos autores que pensam um passado mítico através da fantasia (Tolkein; Martin). A ideia que sustenta a figura do cyborg ou mesmo do robô é um reflexo da espelho que sustenta a figura do elfo: uma superconsciência muito próxima da imortalidade e aparentemente imune ao pesadelo prometeico. Aparentemente.