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Expresso

Luz e lata

"Violência" anunciada para hoje, em Algés

Joaquim Paulo Nogueira, Carlos Santos e Maria Zamora, ontem na ante-estreia da peça acolhida pela Companhia de Atores, em Algés

Inês Torres da Silva

Fátima Pinheiro

"VIOLÊNCIA" estreia hoje no Teatro Municipal Amélia Rey Colaço. Texto de Joaquim Paulo Nogueira, encenação de Carlos Santos  e interpretação de Carlos Santos e Maria Zamora. O tema não podia ser mais oportuno. A violência pode matar mas também pode levar a um abraço. Diz o release: "uma filha que viveu num ambiente de violência familiar regressa a casa para assistir ao funeral da mãe e encontra um pai aparentemente regenerado. Conseguirá ela superar as memórias do passado?"

Carlos Santos , o pai, ganhou recentemente o prémio da Sociedade Portuguesa de Atores de melhor ator de cinema de 2012 no papel de Rosa Casaco no filme Operação Outono. Com ele não falei, mas retirei uma frase de um dos textos à disposição: "o teatro, ao ter-me aberto as asas, fez com que eu começasse a voar. Primeiro titubeante, batendo com a asa no chão, mas lá me fui endireitando e comecei a voar bem. Depois fazia rasantes, voos picados. E essa sensação colou-se-me." Com Maria Zamora, conversamos. Lança perfume.

A arte é para ela " o veículo mais completo da comunicação; estar vivo, sentir, respirar, criar, ser, ser compassivo, ser agente interventivo na realidade que nos assola." E a violência? "tem demasiadas faces e manifesta-se de múltiplas formas, como sabe, e nenhuma delas gera a magnificência."

E esta peça porquê? "Respondo-lhe com várias perguntas: Conhece os números de mulheres mortas vítimas de violência doméstica? Conhece a realidade das nossas escolas? Será que o cidadão atento tem consciência que pode ser um agente de mudança desta realidade? O porquê? Nós não temos respostas, cada indivíduo é convidado à reflexão sobre o assunto e agir em conformidade com os seus ideais. Levantamos questões sobre o ódio, a capacidade de perdoar em suma as repercussões emocionais, psicológicas que um ambiente familiar hostil pode trazer para o ser humano, para a nossa vida em sociedade...a solução está na ação e não na omissão."

Este papel viveu-o  "inicialmente com bastantes resistências, não foi nada fácil entendê-la e senti-la. Ao longo da construção do texto com o Joaquim Paulo Nogueira e o mestre Carlos Santos fomos re-descobrindo, a posterior análise dramatúrgica, dos longos meses de trabalho de mesa, de pesquisa no campo, visionamento de vídeos, leituras, dos ensaios e do processo criativo da personagem "Alice" foi ganhando vida, comecei por respeitar o seu estado, o seu lugar e com as orientações do encenador Carlos Santos e contracena, fui percebendo a essência do desequilíbrio desta mulher emancipada que aprendeu a viver com este ódio de estimação, com este sentimento de traição em relação à confiança depositada num pai que a mimava muito quando era criança, é uma mulher que consegue apesar de tudo construir uma vida de amor, emancipou-se desse ódio mas que com muito pesar não o consegue perdoar... pelo menos nessa fase da vida em que se encontra, depois de enterrar a mãe, mãe que deixou a sua sorte nas mãos de um homem violento e que nada fez para o impedir..."

Pois eu vou regressar a esta Violência.  Gosto da Beleza dos objectos e barulhos do Teatro. E sobretudo do corpo a corpo. Do ao vivo. É uma doação.