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Expresso

Luz e lata

Ricardo Araújo Pereira é diferente de José Sócrates? É de rir e chorar.

Fátima Pinheiro

Ontem vi na net um vídeo do Ricardo Araújo Pereira onde confessa a sua não crença. "Se Deus não existe, a minha vida não faz rigorosamente sentido nenhum". E preocupa-se, ao contrário do que diz um livro da Bíblia, o Eclesiastes: tudo é vão, então é gozar. Lembro-me do Cardeal Cerejeira,  como via os cristãos de Lisboa: são boas pessoas, comem, bebem e não fazem mal a ninguém. Pouco, muito pouco.

O mulherio diz de Sócrates: lindo de morrer. É nele que voto

O humor inteligente de Ricardo, eu já conhecia. O que me surpreendeu foi a filosofia que sabe. É de ver o que ele argumenta sobre vida e morte. É também de chorar, e fá-lo a fazer rir. E gostei de saber que "gosta" de mim: ele não gosta do cristianismo, mas gosta dos cristãos. E do que não gosta mesmo é de padrecas. Padres sim. Em especial o Pe Tolentino Mendonça, que ali estava ao lado dele, e que foi quem o casou. E a quem já "perdoou"; sinal de que partilha com os cristãos o valor do perdão - gargalhada geral, o que aliás se ia repetindo entre cada tese do humorista. Ao contrário de José Sócrates, que não sabe nem filosofia e já nem me faz rir nem chorar. O que se passou neste seu regresso faz-me pensar que estou em Hollywood. Eu sempre defendi que ele tinha também futuro na 7ªarte. Não sei que arte ele tem, mas que veio para ficar e ficar bem, disso não duvido. A vantagem de ser mulher: das conversas de cabeleireiro sei o que o mulherio diz dele. Tão lindo! é nele que voto. Eu bem sei que a imagem tem um valor incalculável. Mas não é tudo.  Sei ver quando é ela a ocupar grande parte do centro da vida de uma pessoa.

"Quero saber quem sou, o que faço aqui, quem me abandonou, de quem me esqueci" 

Ricardo conta a certa altura porque decidiu a sua profissão. Os meus pais punham-me na casa da minha avó, que estava sempre muito séria. Fazia tudo para a fazer rir. Ainda bem. O seu trabalho está à vista e tem consistência filosófica. Mas está incompleto. Hoje quero apenas destacar do seu discurso, que há sérias implicações a tirar; e que aprendi que está aqui muito TPC. O riso tem um forro de silêncio, não se reduz a um fazer esquecer ou escape.  Pode inspirar, mesmo, veneração.

Neste sábado santo, "silêncio" é palavra de ordem. Bem sei que Páscoa ainda não é o que era, ou o que é. Pode ser apenas férias, ponte, nada, ou indiferença. Mas para os "gebos" de sentido que somos, ela é a "sombra" que não nos larga. Quero saber quem sou, o que faço aqui, quem me abandonou, de quem me esqueci. Há tempo para pensar nisto? A vida é uma correria, as perguntas são lixadas, cada um pensa de modo diferente, vamos andando.

Aproveito a véspera do Domingo da Ressureição para me meter dentro dos números de Ricardo e não nos números de Sócrates, que me cheiram a esturro. Imagino-me ser a avó sortuda de um neto que me faz pensar. Tenho as mesmas perguntas que ele. A diferença é que encontrei a Resposta; o que me leva a perguntar cada vez mais. Um atleta de alta competição deixa de ter que fazer exercício todos os dias? Ponho a fasquia à minha altura, ou salto "assim assim"? 

 Nasci nua e vestida de riso

O Papa Francisco na Via Sacra no Coliseu, ontem: Deus respondeu com a Cruz de Cristo que é Amor e salva. Por isso concordo com o que Luis Miguel Cintra comentou noutro sítio onde escrevo, sobre o filme "Evangelho segundo Mateus": "Pasolini [que se dizia ateu] consegue o milagre de filmar o mistério apenas filmando dois seres humanos. Sem uma palavra. Acreditando que o mistério da encarnação não se explica, está. Basta saber olhar. E no olhar de São José no filme de Pasolini, está o Espírito Santo. Conseguiu filmá-lo. Acreditou. Percebeu. E a gente acredita que é verdade porque aquele s. josé olhou assim aquela maria. Isso não se pode explicar mas já é o novo mandamento. Que Pasolini aceita como ninguém. Por favor. Para que isto se entenda é preciso um bocadinho menos de barulho. E espaço."

Filosofar não é  "umas bocas" que a malta atira, mas uma disciplina. Ela entra a matar argumentações falsas ou incompletas,  e tem o humor no terreno. Ela alarga a razão; desimplica o que Ricardo e Pasolini fazem. Só assim não me limito a ser apenas uma "boa pessoa". Há diferentes formas de ressureição, de rir, e de chorar. Tudo depende da seriedade com que se levam as perguntas - muitas vezes enterradas - do meu coração, do meu "eu". Ricardo: nasci nua mas vestida de "riso". Tudo por causa de Isaac. E não é parar rir, é a sério. LOL.