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Expresso

Luz e lata

O Django sou eu: uma manhã vermelha no Museu da Margarida Lancastre

Fátima Pinheiro

O Museu das Crianças está agora no Jardim Zoológico. Mas começou em Trás os Montes, um dia em que o Zé Hermínio, uma criança que gostava de passear, pegou na mão da condessa da Guarda, como quem diz "gosto de ti". A seguir veio todo um rebanho e não mais se parou de brincar. Punha-os em casa a fazer coisas proibidas e pouco comuns por aqueles lugares, há mais de 50 anos. Tudo por causa de uma mina de ouro, que chamou de Lisboa o seu marido para nela trabalhar. Não "escangalhou" a mina porque todos a estimavam percebendo que o que fazia era coisa boa, e exigente. Também para os grandes. Um dos mineiros, a quem ensinou a escrever, disse: "Senhor engenheiro, o lápis da senhora dona Margarida pesa mais que a minha picareta".

Os projetos em carteira deixaram-nos de boca aberta

Da sua casa passaram para uma de zinco, oferecida pela mina. Esta linda mulher não mais parou de se fascinar pela vida, pelas crianças, e reconhece que é algo inexplicável. Mágico. Depois de 11 anos de ouro, o Museu desceu a Lisboa, e promete não parar. Inundado de crianças todos os dias, foi assim que o conhecemos há umas semanas. Pela mão da bela condessa, que é fã do "Principezinho", e que todas os natais recebe um postal muito especial. Os projetos que tem em carteira deixaram-nos de boca aberta.

A Margarida fala do marido com uma cumplicidade comovente, e percebe-se que a obra da mulher também é coisa sua. Não só porque sempre a apoiou com dinheiro - "Empresto-lho", diz ela das palavras dele, a rir -, mas porque sempre a entendeu e entende no que a anima, e tem animado, milhares de crianças.

Ser grande é abrir os olhos e seguir quem vê

Conheci-a há três semanas, num almoço em sua casa (que bom) e foi amor à primeira vista. Contou-me que tinha agora uma exposição intitulada "Vermelho". Pegou-me na mão e levou-me. Fomos duas crianças numa conversa e numa brincadeira a tocar em tudo, a experimentar a vida em cada coisa interativa que é ali um desafio para quem quer ser grande. E o que é ser grande? É abrir os olhos e seguir quem vê.

Uma brasa ainda e sempre, é elegante e é vestida de uma personalidade desarmante. O título nobiliárquico trá-lo como quem veste umas calças de ganga. Recebeu muitos prémios pela sua obra que quando veio para Lisboa se instalou primeiro no Museu da Marinha, até 2005. As coisas caiem-lhe ao colo, mas ela nunca se põe na atitude de esperar que isso aconteça. Contou-me como bateu a todas as portas. Todas. "Já viste a minha lata?" Já, já. E vejo-a a brilhar nos barrotes de fotografias.

Fotografias e projectos

Fotografias de Concertos. De Musicais no CCB, um sobre o Sonho, outro sobre a vida de José do Egipto, que é um autêntico espanto, estiloso, moderno e a transbordar de cores e talentos em todas as artes. Autos de Natal em Igrejas. A primeira reunião internacional da Rede de Museus das Crianças, acolhida por ela em Portugal. As visitas de ilustres, políticos, artistas, e outros. Para ela são todos crianças. Porque os seus olhos ternos e firmes não julgam, cortam a direito, e assim viram a história dos nossos dias. Como se o tempo parasse para tudo poder acontecer.

O que se passa no Museu e o vermelho que dá vida

Os álbuns não acabam. E a vontade que muita coisa se repita é grande. As várias exposições são compradas por ela ao Museu das Crianças da Bélgica (um dos poucos no mundo), que ela descobriu enquanto o engenheiro Sebastião estava nas suas reuniões, e ela se punha a procurar. Fotografias e mais fotografias dessas exposições em ação cá, com as nossas crianças cá. Sem parar. No dia em que fui ter com ela, para dar um exemplo, a música de fundo era a de três grupos de escolas a brincar com o "Vermelho". Uma algazarra e alegria, mas tudo com o back office da organização do Museu, onde se verifica um trabalho preparatório exaustivo, em cada detalhe. Da qualidade das formadoras, às cores e variedade dos objetos escolhidos: o quarto de hospital onde se é doente (e quase se morre, às gargalhadas, claro), o veste e despe as roupas do armário, as peças com que cada um é desafiado a criar uma história, ou a alterar um quadro com magnetes a colocar à vontade. A puxar por uma criatividade que nada dá por adquirido. A porta secreta que leva a um lugar cor de rosa vivo, misterioso, onde se ouve contar um história. O palácio que ao ser aberto nos leva ao "Principezinho", peça encomendada pela Margarida e é uma autêntica maravilha. "Adoro o Principezinho!", confessa. "Já viste o meu relógio?" E era um tipo Swatch mas com o seu herói, desenhado por baixo dos ponteiros.

Vai alegrando e alargando cada um pondo-nos as "pistolas" nas mãos

E o que fazes às exposições anteriores? "Está tudo em contentores na quinta". Diz isto como quem bebe um copo de água. Não tem pressa em concretizar o seu projeto de um Museu onde tudo isso possa estar, e estar para interação. Vai alegrando e alargando cada criança, cada dia. Se acontecer acontece, se não acontecer não acontece.

Certo é que não poupa em exigência. Dela e dos outros. Vai onde for preciso. A mim chegou-me de bandeja e mostrou-me a inteligência dos simples. Fiquei criança. Gostava de continuar. Não é difícil mas exige. Quanto ao engenheiro de minas, ainda hoje o barulho não lhe é fácil. Já no tempo em que estavam na mina ele "enxotava as crianças". Mas ela, numa bela cumplicidade que o poupa, faz a brincadeira de lhe dizer a verdade mentindo, dizendo do que tem ao colo: são rosas, senhor.

Porquê o Django? Tarantino é um "brincalhão" que nos tira do nosso falso "sério" ao criar um mundo autónomo em que o sangue e as pistolas não o são. Com um orçamento mais "espaçoso" fez-me neste filme entrar nos nossos sangues e pôs-me as "pistolas" na mão. Também a Margarida. E também é preciso um maior orçamento. No final da visita, ela foi almoçar com o Sebastião, e eu ainda fiquei a brincar mais um bocadinho. E no próximo Natal, vai ali chegar mais um postal com um poema do Zé Hermínio. Isso é que conta. O resto vai acontecendo.