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Expresso

Luz e lata

O desassossego de 7 homens

Fátima Pinheiro

"Dos homens e dos deuses" (2010), filme de Xavier Beauvois, não é o meu preferido para esta semana santa. Pasolini, Manoel de Oliveira e Gibson sim, respetivamente em "A paixão segundo Mateus", "O Acto da Primavera" e "A paixão de cristo". Mas vejo -o vezes sem conta . Experimento que nada é para ser dado como adquirido e os meus medos são abraçados.

Sete histórias de sete conversões, surpreende pela humanidade 

Um filme católico, repetiu-se quando saiu. Não é. Porque os filmes são filmes e ponto. Também não há matemática católica! Neste caso trata-se de: era uma vez sete monges católicos, trapistas, que viviam num Mosteiro fundado em 1938, em Thiberine, na Argélia. Foram assassinados a 23 de Maio de 1996 porque eram vistos como uma ameaça. Porquê? Porque viviam em boas relações com a comunidade local: participavam nas cerimónias religiosas muçulmanas, nas outras festas, vendiam os seus produtos, da mesma terra, nas mesmas feiras, conversavam estabelecendo relações de amizade, ajudavam a resolver burocracias (como preencher certos papéis, etc.) e tratavam, nalguns casos curavam mesmo, quem aparecia no convento e precisava. Incluindo terroristas, o que não era bem visto pelo exército local, que por várias vezes os intimidaram a sair do país. Um filme que podia ser uma arma de arremesso contra ideologias, ou ele mesmo um filme ideológico, ou um hino a uma pretensa atitude estoica de sete homens sem medo de nada nem de ninguém. Mas não. O filme é sim, antes de mais, sete histórias de sete conversões. Surpreende pela humanidade.

Luc, o monge médico, está desde o início pronto para a "colheita". No meio de um ataque de tosse, o seu "tudo bem" como resposta à pergunta de Christian, seu confrade e superior do mosteiro - "tudo bem?" -, quando em fila sobem o Atlas, escoltados para o matadouro, sob uma impiedosa neve que não lhe poupa a asma (ele que curava mais de cem pessoas por dia ...), é disso testemunha.

O que se une e o que está desunido entre palavra e acção

Desde que o cerco começa a apertar, que todos pensam em partir dali para um lugar mais seguro. Chistian é o único que não o diz, parecendo ter ainda algumas dúvidas. Contudo, pela maneira como ele vai vivendo e conversando com todos, tudo indica que está também pronto, desde o início. Os lírios do campo estão no seu lugar e nada lhes falta.

O filme cruza constantemente as "palavras" que cantam no convento - a liturgia - e as lutas íntimas em que vivem o drama do dia-a-dia, no "tempo" das tarefas quotidianas e no "tempo" de oração contemplação. Percebe-se, num encadeamento de mestre, o que se une e o que está desunido entre palavra e acção. O realizador, sem ser crente, mostra a intimidade daqueles homens, que a oração não é "não acontecer nada", mas "acontecer tudo" porque é no eterno diálogo com Deus, e entre si, que vivem a vida como dádiva e por isso, são fiéis à sua vocação. É "rasgando", ou abrindo, o seu "eu", que aqueles homens abraçam, por se deixarem abraçar. Sem máscaras, sem cinismos. Vivem a circunstância, atentos ao que lhes é pedido fazer.

Estamos aqui para viver, não para morrer

A humanidade daqueles homens vem ao de cima nas conversas que cada um vai tendo, sobretudo com Luc e Christian. Todos se questionam e no final todos têm uma razão para ficar. Cheios de medo mas "sossegados", em paz. Estamos aqui para viver, não para morrer, cada um o diz, à sua maneira, de sua própria boca.

Várias vezes ao longo do filme, pensamos "é agora" que vai ser, a matança. Na noite de natal, por exemplo, o líder terrorista invade o mosteiro e exige medicamentos. É-lhe dito, pelo superior, que eles tratam quem aparece, e que a conversa é fora da casa, porque ali não entram armas. O muçulmano acaba por aceitar as condições e vai-se embora, após um belo diálogo, que irá comprometer Christian, quando diante das autoridades argelinas - que lhe pedem para reconhecer, mais tarde, o seu corpo morto - ele, sem qualquer hesitação, e num sobressalto, o reconhece, afirmando que sim, que "é ele". Christian baixa a cabeça, os olhos banhados, a persignação e as mãos cruzadas a rezar por aquele seu irmão, agora ali um cadáver. O olhar que lhe deita o oficial argelino marca-o (os) da forma que sabemos.

Uns dias depois daquela noite de natal, e ainda o chefe terrorista vivo, eles voltam com o Luc. O que é visto, mais uma vez pelas autoridades argelinas, como os monges protegem e são protegidos terroristas.

O "largo" dos cisnes 

Na última ceia, que antecede a captura, os "cisnes" já todos à mesa (incluindo um monge visitante, que tinha vindo trazer medicamentos, um livro, queijo, etc., e contar as notícias...), Luc vai buscar duas garrafas de vinho e põe, num gravador, a "abertura" de  Tchaikovsky . Todos se apercebem do que está a acontecer, e... para acontecer. A imagem, a música, os rostos, rolados pela câmara um a um, fazem um só bloco, e nada é dito. Ou melhor tudo é "dito".