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Expresso

Luz e lata

"E agora José?", Drummond e Mário Soares

Fátima Pinheiro

Não é análise política. Luz e lata é outra coisa; escrevo hoje sobre poesia. Política é distinta. A que se tem feito é um debate animado sobre José Sócrates como comentador na RTP1. Eu até acho que seria muito bom se ele comentasse mesmo. Quem melhor do que ele o poderia fazer? Mas não me parece que tenha nem a luz nem a lata suficientes para tal. Nem verdade, nem frontalidade. Ele abunda mais em retórica e teatro, às avessas, entenda-se. O poema de Drummond de Andrade "E agora José?" é hoje, então, o meu caso.

"E agora?" foi também o título de um recente artigo de Mário Soares. Mas pergunto eu: pergunta ele a quem? A crise tem levado este homem a um regresso à política activa, de onde aliás não sai. "E agora?", pergunta. Recordo as manifestações que temos sido e ponho agora o poeta brasileiro: "a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, está sem discurso, o dia não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo mofou". E pede no JN e no DN, e noutros media, outro governo. Que este está moribundo, que ninguém já o toma a sério. E quer a intervenção de Cavaco. "Sou democrata [não seria preciso lembrar] e sei bem que não há democracia sem eleições. Mas há momentos em que as eleições não se justificam porque não resolverão nada e podem antes complicar muito a situação". Percebo. Mas a quem faz Soares a pergunta? Aceito-a então para mim, que mais ordeno, e respondo. Faço-o com outra pergunta, que é, também, um pedido ou exigência de resposta. De capotes sem água, de ter sido enxotada, estou cheia. Prefiro o cara a cara. Porquê? Porque preciso de razões e gosto de tapetes limpos também por baixo.

Soares dá mais este passo sem ninguém lho pedir. Fala por si, e são muitos os que o ouvem e seguem. O que pensa e diz tem magia e força. É homem de missões impossíveis, bond sem rede nem duplos, de crédito ilimitado, ganho no terreno, em horas difíceis. É um jovem que não pára. Como Manoel de Oliveira. E não quero, nem posso medir o seu amor a Portugal. Nem tudo o que parece é, e sei que os actos ficam com quem os pratica e nada há de mais inestimável do que a liberdade. E sei que não foi o Zeca que o descobriu.

Um comentador da nossa praça perguntava há dias que sem ser a troika, que outra solução tem sido apresentada? Mostrem-ma e eu mudo de opinião. Sim, faz falta animar a malta, dar o poder à malta, mas não é assim, sem mais nem porquê. Muitos são os que têm apontado, e bem, como a herança Sócrates, recebida por Passos Coelho, foi uma batata a escaldar. Eu não sei dizer tão bem como eles. O que a minha razão não aceita é que me encham de mentiras. Repito sempre as palavras de um dos meus top ten: "o erro é uma verdade enlouquecida".

Manifestações? Certo. Mas não me façam poesia na política. Não me enganem, nem nos números nem me digam que a política se faz a contar cabeças e a cantar liberdade. Eu sei que está tudo lixado e na televisão as imagens passam e são um espelho, entre outros espelhos. Mas a política faz-se com verdade, com os instrumentos possíveis e, felizmente, com as mãos sujas. Nenhum membro que ocupa um lugar no poder - hoje e ontem - é um anjo. Falo por mim, que lhes entreguei a minha soberania. E há ajustes que podem agora ser feitos. E se calhar serão. E volto a Drummond: "E agora, José?/ sua doce palavra/, sua incoerência/,(...) você é duro, José!/(...) que fuja a galope/, você marcha, José!/ José, para onde?". A pergunta do doutor Soares - "E agora?" - teria outro destinatário. Mas acontece que esse não cumpre o que diz o poema que tenho vindo a citar: "Sozinho no escuro/ qual bicho-do-mato/, sem teogonia/, sem parede nua/para se encostar/, sem cavalo preto". Tem cavalo tem, e o seu rodeio de picadeiro - para breve na TV - tem no meio um outro animal.