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Expresso

Luz e lata

Acredito na Ressurreição: com "mais" e" porquês"

Fátima Pinheiro

Comentando opiniões sobre a fé em Deus, um professor meu dizia: todos ficam excitados com a frase de Kierkegaard "a fé é um salto no irracional"; calam-se, e o assunto relações entre fé e razão, está arrumado; só que se esquecem de perguntar quem é que dá o salto. A Ressureição ninguém a viu. Por isso a Ciência, a dama da demonstração, não é para aqui chamada. Mas a maior parte das vezes, é em seu nome que se nega a veracidade do tal acontecimento. É uma espécie de anacronismo metodológico. Este assunto pode ser posto numa pergunta que me é dirigida por quem diz que o túmulo de Jesus está vazio: foi assalto? Ou: quem dizes tu que é Jesus de Nazaré? É Deus? Ou não? O mesmo filósofo dinamarquês reconhece que esta é a pergunta a que interessa realmente responder. É que se Ele é Deus, se ressuscitou, tudo muda de figura. Mas como posso eu saber? Ou usando as palavras do meu professor: quem salta, onde, para onde, como, e porquê?

Qual o gozo de gozar?

Se a vida apenas se dirige para a morte, nada na vida faz sentido de jeito e bem fizeram muitos, como o meu vizinho que acabou com a brincadeira há dias. Qual é o gozo de gozar se tudo é vão, como diz a Bíblia, no Eclesiastes? Mas também fazem bem os que decidem ficar. Agora, se é para ressuscitar, e se eu não vi, então vou perguntar a quem diz que acredita. Vou chamar-lhe Pedro. Não lhe pergunto por ser bonzinho, mas por ser um homem onde brilha uma "coisa maior" que ele, e isso atrai-me. Mas para me dar argumentos; não me contento com fezadas, quero saber porquê. Que razões me dás da tua fé, Pedro?

Como se sabe se Jesus ressuscitou?

Ele também não viu. Fez o mesmo que eu, procurou. E onde viu uma humanidade maior, uma alegria estampada no rosto, parou e disse: eu quero isto para mim. Recuaram de século em século, chegaram ao lugar do túmulo vazio e viram umas mulheres que diziam: Ele não está aqui, ressuscitou, porque o tinham ouvido de um anjo.  A Maria Madalena, que não O conheceu logo (pensou que era o jardineiro) pediu-lhe para dar a notícia. Era um homem diferente dos outros, diante do qual o seu coração palpitava mesmo. Um homem que correspondia ao desejo de humanidade. E passou de boca em boca. De carne em carne, de curiosidade em curiosidade. Uma vida que tem milhares de anos, e que chega até mim numa cara que me atrai, toca, e põe em carne viva as minhas inquietações. Como aquelas mulheres, eu quero e hoje: verdade, beleza, justiça, bem, amor. À volta tudo grita ou conspira o contrário, mas aquele homem era, em pessoa, tudo aquilo. E seguiram-No.

Seguir é simples como beber um copo de água. Um salto. Igual a muitos saltos que dou ao acreditar, por exemplo, pelo que sei e vejo, que o meu filho, desta vez, não me está a mentir. Não o posso demonstrar, isto é, dizer tim tim por tim tim todos os passos que me levam a julgar como verdade que assim é. Mais simples: não é por razões científicas que sei que o meu filho Francisco Xavier me está a falar verdade. É por outro método, ao qual os filósofos chamam de certeza moral: confiar num outro que me dá razões para tal. Para não ir mais longe, foi John Henry Newman em The Grammar of assent que explicou isto melhor que ninguém. Demonstra que tratando-se do sobrenatural, a razão não faz nada que não costume já fazer em assuntos naturais, como o do meu filho. Salta. Só que para lá do natural.

O salto da razão acontece "agora"

E quem salta? É a razão. Porque encontra "alguém" da sua família: razões. Também posso saltar por fezada ou moralismos. Mas é de uma tristeza medonha, desumana "Maria vai com as outras", ir atrás porque "sim". O Pedro não. Eu também não. Só descanso, me alegro e sou feliz, ao saltar no desconhecido que me conhece como ninguém. Por isso é razoável reconhecer que Ele ressuscitou: senão eu não seria o que sou, nem quem sou. Sei-o porque me experimento. E está na cara. E se um dia me aparecer um outro Pedro maior, vou segui-lo. A coerência, sabemos, não é por si, um valor. Nestas coisas o valor está em termo-nos em conta. Mas o que eu vi no Pedro é de tal ordem que duvido que mude. Não que seja eu a medi-lo. É ele que me mede a mim. Como disse a Zaqueu, o tipo que cobrava impostos e que, por ser baixinho, teve que subir a uma árvore para O ver passar: desce daí que Eu vou a tua casa agora. Procurou, encontrou. Saltou cheio de razões, mesmo não abarcando tudo. Bom sinal: se eu tudo abarcasse estaria apenas diante de um mim e não de um coisa maior. O cristianismo é superior à razão, mas em nada lhe é contrário. E é a razão que reconhece que há algo maior que ela. Nesta posição intelectual faço o que Ratzinger entendia como bom e necessário no célebre discurso na Universidade de Ratisbona: alargar a razão. Um "pequeno passo", dizia ontem na Vigília Pascal o Papa Francisco. 

Pode ser simplesmente agarrar a mão a quem está a morrer e dizer-lhe: vais morrer, mas isto é apenas uma face da moeda. Na sexta-feira fui ao Hospital da Cruz Vermelha "ajudar" uma mulher a morrer. Eramos só conhecidas mas soube que a foice estava para lhe chegar. Quando cheguei, o túmulo estava quase vazio. Morreu há três dias. A Ressureição Acontece hoje ou não Acontece. Se é uma coisa do passado, que fique no Museu de Arqueologia, e não tem a ver com a vida, nem com a morte, e muito menos comigo. Grande mistério é este, não por ocultar, mas por me dar luz. A Ana Maria não partiu sem mais nem porquê. Diziam entre si os discípulos de Emaús: "Não nos ardia cá dentro o coração quando Ele nos falava pelo caminho?" (Lucas 24, 32b).