Siga-nos

Perfil

Autárquicas 2017

Autárquicas 2017

O escultor de Cristiano Ronaldo que se candidata pelo PS e os independentes que veneram Jardim

Gregrio Cunha

Na Madeira, o autor do busto das estrelas do Real Madrid, Cristiano Ronaldo e Gareth Bale, é o candidato do PS à Junta do Caniçal nas primeiras eleições autárquicas pós-Alberto João Jardim. O antigo líder tem aparecido pouco, mas diz-se que é a mão invisível por detrás de quatro movimentos independentes. Os candidatos, ex-autarcas do PSD e incondicionais do anterior presidente, negam as manobras na sombra, mas confessam a grande admiração por Jardim. E os independentes podem mesmo baralhar as contas em alguns concelhos

Marta Caires

Jornalista

A época da safra do atum está acabar, a festa de Nossa Senhora da Piedade com a sua procissão de barcos já passou e, no Caniçal, terra de pescadores, são as eleições que animam a freguesia mais a leste da Madeira. Entre os candidatos a presidente da junta há um nome que correu mundo por alturas da mudança de nome do Aeroporto da Madeira. Emanuel Santos, o autor do busto de Cristiano Ronaldo, está na corrida pelo PS e tem planos para aproveitar “o viveiro de artistas” que existe na terra onde nasceu. Se vai ganhar, não sabe, mas tem 'um feeling' que não revela, pois em eleições “o povo é que decide”.

“Não vou entrar em euforias. Tenho os pés bem assentes na terra”. Emanuel Santos, 40 anos, casado, pai de um filho, funcionário em part-time de uma empresa que embala malas no aeroporto e escultor autodidata, admite que a campanha tem corrido bem. O que significará em votos isso não sabe, a luta política é uma novidade e o autor dos bustos de Cristiano Ronaldo e Gareth Bale admite que hesitou bastante antes de aceitar o convite do presidente da Câmara de Machico. As conversas começaram quando se inaugurou a primeira escultura de Emanuel Santos na frente-mar do Caniçal, ainda em 2016. “Não sabia se seria capaz de conciliar a minha actividade com a política”.

Depois veio a fama com o busto de Cristiano Ronaldo, chegou a encomenda para fazer uma peça semelhante com Gareth Bale e o escultor autodidata (Emanuel Santos não tem um curso de artes) lá acabou por aceitar. Agora está empenhado na luta autárquica e tem projectos, defende a promoção de eventos desportivos na freguesia, lugar de sol e mar, quer aproveitar a natureza para trazer mais turistas e também quer aproveitar os muitos talentos que por ali existem. “O Caniçal é um viveiros de artistas. Temos muitos talentos na música, na pintura e na escultura, que é preciso aproveitar. Temos o centro cívico com salas vazias que podiam bem ser transformadas num atelier. Só alguém como uma tendência artística como eu é capaz de perceber essa necessidade”.

Carlos Pereira

Carlos Pereira

Gregrio Cunha

Os independentes são a vingança de Jardim?

Em Santana, a terra das casas típicas na costa norte da Madeira, Carlos Pereira, presidente da câmara durante 22 anos, está de volta à política e anda em campanha, mas desta vez concorre como independente a ver se derrota o CDS que conquistou a autarquia ao PSD em 2013. Dá-se o caso do agora candidato independente ter sido militante social-democrata e incondicional de Alberto João Jardim, mas Carlos Pereira garante que não está contra o antigo partido. Afinal quem “é poder em Santana é o CDS, não estou contra o PSD”. O independente do movimento Santana Forte é um dos quatro candidatos nestas eleições autárquicas que são próximos do antigo líder madeirense e, segundo se diz, farão parte de uma estratégia manobrada na sombra para vingar a derrota de há quatro anos.

Em 2013, os apoiantes de Miguel Albuquerque formaram um movimento que ganhou São Vicente, uma das sete câmaras perdidas pelo PSD-Madeira. Jardim não terá perdoado e terá incentivado vários movimentos independentes. Carlos Pereira nega. O regresso após oito anos tem como principal preocupação as pessoas do concelho e vários factos como a entrega da gestão da água a uma empresa pública regional e o encerramento das urgências no centro de saúde. As medidas foram do executivo de Jardim, mas as críticas são para o actual governo que não reverteu as medidas e não avança com o que falta fazer da via-expresso no concelho. Para Alberto João Jardim tem apenas elogios e palavras de reconhecimento. “Devo-lhe muito e devo dizer que, com Alberto João Jardim, a Madeira tinha afirmação política. Hoje, no PSD, há muita imaturidade”, admite o agora candidato independente.

Santana, a terra das casas típicas na costa norte da Madeira, dificilmente regressará às mãos do PSD e a candidatura independente do antigo autarca divide ainda mais os votos. Só depois de 1 de Outubro se saberá os impactos. Por enquanto, Carlos Pereira vai de porta em porta, com carro de campanha e a equipa que não é grande, mas é empenhada e trabalhadora. Tal e qual como Gabriel Farinha define os jovens que o fizeram voltar depois de oito anos fora da vida partidária. “Foram eles que me convenceram a voltar”, explica o independente que concorre ao Porto Moniz, o concelho mais pequeno da Madeira.

Gabriel Farinha

Gabriel Farinha

Gregrio Cunha

Farinha, antigo diretor de serviço da empresa de transportes públicos 'Horários do Funchal', é mais um dos antigos presidentes de câmara do PSD que regressa à política e mais um que nega qualquer ligação a manobras de Jardim. “Foi um grupo de jovens que me contactou, que entendeu que eu devia avançar contra esta governação de despesismo e consumismo. O investimento caiu, não há emprego, nem maneira de fixar as pessoas”. Uma vez mais não é contra o PSD, é contra o actual presidente da câmara que é socialista. “Não foi o dr. Alberto João Jardim, nem nenhum dos seus antigos delfins. O que posso dizer é que foi o dr. Alberto João Jardim que me trouxe para a política e eu fiquei com o bichinho da política”.

As eleições no Porto Moniz, o concelho onde ficam as famosas piscinas naturais, são sempre muito disputadas. Gabriel Farinha acredita que a luta será entre a sua candidatura e a do presidente da câmara, Emanuel Câmara. O PSD já estará fora de jogo e, embora insista que não existe uma mão invisível por detrás de si, os resultados terão consequências políticas. “Há olheiros a ver tudo isto”, avisa, prevendo uma luta renhida no concelho e em toda a Madeira onde as previsões não são boas para os sociais-democratas. Os tempos do pleno do PSD em todas as câmaras municipais e todas as juntas de freguesia estão enterrados e os adversários chegam da oposição e do próprio partido.

Ricardo Nascimento

Ricardo Nascimento

Gregrio Cunha

“Obviamente magoado”

Há um outro independente da área do PSD em condições de ganhar uma câmara na Madeira. Uma sondagem publicada pelo Diário de Notícias da Madeira coloca Ricardo Nascimento em primeiro lugar na corrida autárquica da Ribeira Brava, a candidata do PSD aparece em segundo. Também ele foi eleito presidente da câmara pelo PSD, é um admirador de Alberto João Jardim e agora concorre como independente. Em 2013, foi um dos quatro vencedores do partido de Jardim e de Albuquerque, mas, no entretanto, houve mudança de liderança e a nova direção decidiu fazer uma aposta numa candidata mais próxima de Miguel Albuquerque, Nivalda Gonçalves, que aparece em segundo lugar nas sondagens.

Ricardo Nascimento, o ainda presidente da câmara e professor de Matemática, não gostou. Depois do trabalho para pagar a dívida, criar apoios sociais e até recuperar um campo de futebol com receitas da autarquia, de ter sido a cara do partido no concelho ficou “obviamente magoado”. O agora independente entende que tem um projeto e tem o direito de o sufragar perante a população. Não é pelo PSD, é como independente, mas para isso não precisou de um empurrão, muito menos de um empurrão de Alberto João Jardim. “O que posso dizer é que tenho uma grande consideração e admiração pelo dr. Alberto João Jardim, tenho uma grande estima por ele e também sei que ele tem estima por mim. Foi ele que me desafiou a vir para a política”.