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Fundos de investimento

Mineiro sem sujar as mãos

Mineiro sem sujar as mãos

Os metais preciosos deram aos fundos de minérios o brilho para rendibilidades de 2 dígitos nos últimos 5 anos, mas 2008 tem sido ano de perdas

Nuno Alexandre Silva

Já deve estar farto de ouvir que a China, a Índia e outras economias emergentes estão por todo o lado na economia mundial. Na subida do preço da comida, na subida dos combustíveis fósseis, no aumento das emissões de dióxido de carbono, os países que lideram o crescimento têm um papel determinante em muitas transformações no globo.

Com o ouro e outros metais, o cenário não é muito diferente. Em 2007, a China tomou o lugar dos Estados Unidos da América como a segunda maior consumidora do mais importante metal precioso, logo atrás da pátria de Ghandi. A acrescentar à febre garimpeira, muitos outros países - da Turquia aos Emirados Árabes Unidos, passando por uma Rússia rica em recursos petrolíferos - registaram consumos recorde do metal dourado. Os números da associação de empresas do sector do ouro, a World Gold Council, são o reflexo da maior riqueza nesses países, já que em termos globais a procura de ouro aumentou 4 por cento. Contudo, com a maior volatilidade nos mercados financeiros, também os preços do ouro começaram a agitar-se rapidamente nas bolsas de mercadorias.

Garimpeiros em Portugal

Em Portugal, há 4 fundos que podem fazer de si mineiro sem ter de sujar as mãos e descer centenas de metros para baixo do solo e que, nos últimos anos, acompanharam o galopar do preço da onça de ouro, dos 300 dólares (195 euros) em 2001 para os 1000 dólares (650 euros) em Março deste ano.

Os gestores de fundos de investimento fazem por si o trabalho "sujo" de escolher as empresas que podem ser as picaretas para os ganhos e os lucros de 2 dígitos no longo prazo atestam a capacidade mineira dos fundos à disposição dos portugueses.

O BlackRock World Gold, o DWS Invest Gold and Precious Metals e o SGAM FE Gold Mines combinam as empresas que exploram ouro por todo o mundo e muitos dos nomes nas 10 maiores posições dos fundos repetem-se. As canadianas Goldcorp e Kinross Gold e a australiana Newcrest Mining são algumas das companhias que preenchem as medidas dos gestores e que têm ajudado às rendibilidades altas para quem espalhou o seu dinheiro das poupanças nas minas de todo o mundo. O BlackRock World Gold, que é gerido desde 1994, fez subir a riqueza dos investidores em 125 por cento nos últimos 5 anos, mas, de Abril de 2007 até ao mesmo mês de 2008, este é o único fundo vacinado contra as quedas abruptas que quase todas as classes de fundos sentiram. Os investidores devem estranhar o contraste entre os altos preços do ouro conseguidos em Março e os baixos resultados nas suas carteiras, mas a conjuntura de volatilidade nos mercados financeiros ajuda a entender as perdas que têm deixado de lado o BlackRock World Gold.

Desde Janeiro, as companhias mineiras que exploram ouro têm acumulado perdas na bolsa. A Barrick Gold, uma das empresas canadianas com maior peso na carteira dos fundos, perdeu 17 por cento do valor das acções desde o princípio do ano e a Lihir, a mineira localizada na Papua-Nova Guiné, também viu reduzir o preço dos títulos em mais de 19 por cento, contrariando a subida do preço do ouro, que atingiu o recorde de 1000 dólares (650 euros) por onça - 31,1035 gramas de ouro. A resposta para esta queda dos títulos das empresas é dada pelo World Gold Council, que indica que no último trimestre de 2007 a grande volatilidade e os elevados preços dos metais preciosos levaram a uma quebra na procura de ouro na ordem dos 17 por cento face ao período homólogo de 2006.

Quem está a dar-se bem são as empresas mais diversificadas, como a anglo-australiana BHP Billiton, a maior mineira do mundo, a Rio Tinto (que foi alvo de uma tentativa recente de aquisição pela BHP Billiton) e a brasileira Companhia Vale do Rio Doce, que desde o princípio do ano têm dado aos investidores ganhos na bolsa acima de 5 por cento. Por isso, o BlackRock World Mining, que antes se denominava Merrill Lynch World Mining, o fundo que investe principalmente em empresas do sector de metais industriais como o ferro e o aço, registou uma rendibilidade líquida de 24 por cento nos últimos 12 meses, depois de ter oferecido aos mais afoitos mais de 325 por cento de ganhos nos últimos 5 anos.

Produção engasgada

Nos anos 90, a venda de grandes quantidades de ouro por parte dos bancos centrais levou a que o seu preço baixasse e deu o mote para o abrandamento do investimento nas unidades mineiras. Nas perspectivas para o ouro da gestora BlackRock, os próximos 5 anos vão ser o palco de uma quebra na produção entre os 10 e os 15 por cento. Menos oferta da África do Sul, o maior país de minas de ouro onde há uma escassez energética necessária para a produção, significa a continuação dos preços altos e lucros para empresas e investidores. Isto apesar do cenário de turbulência, que fez com que novos investidores de ocasião apostassem no sector mineiro e que depois da tempestade podem regressar aos mercados bolsistas.

Para Evy Hambro, gestor do BlackRock World Mining e World Gold, "os recentes picos no preço do ouro foram impulsionados em parte pela procura de investidores por um refúgio contra os mercados turbulentos, pela protecção contra a inflação, pelo dólar fraco e pela tensão geopolítica".

Se a turbulência for debelada nos próximos tempos e o dólar recuperar terreno perdido para o euro, os metais preciosos cotados na moeda norte-americana vão reajustar preços, como já aconteceu recentemente. Euan Leckie, gestor do DWS Invest Gold and Precious Metals, um fundo ainda bastante jovem, lembra que "a apreciação do dólar face ao euro, dos 1,60 para os 1,55, teve uma correlação directa no preço do ouro e da prata", que em Março baixou significativamente dos mais de 1030 dólares (669 euros) para os mais de 860 dólares actuais (559 euros) por onça transaccionados nos mercados de capitais.

Do lado da procura, os países emergentes com cada vez mais riqueza vão continuar a aumentar a procura de metais preciosos e jóias seguindo o rumo dos últimos anos em países como Índia, China, Rússia e Turquia. E até há já quem fixe a nova meta para o preço do ouro nos 1200 dólares no ano de 2009, como fez o economista Martin Murenbeeld, do banco de investimento canadiano Dundee Wealth. Outros metais podem ter também um cenário positivo pela frente. A platina, que vem quase na totalidade da África do Sul, não tem dado tréguas e já ultrapassou os 1900 dólares. Euan Leckie revela que no DWS "continuam a apostar nas acções relacionadas com platina" e que "favorecem metais preciosos com aplicações industriais importantes".

O que se aprende do passado é que os fundos mais específicos, que se concentram principalmente num metal único como o ouro, têm tido desempenhos sempre inferiores aos do fundo mais generalista e que se concentra nas empresas que retiram da terra metais como o ferro e o aço.

Elevadores para as minas

A protecção cambial dos fundos da BlackRock dá aos investidores o conforto de descerem à mina sem se aleijarem

Fundo Rendibilidade anual
1 ano 5 anos
BlackRock World Mining E (USD) 24,27% 34,02%
BlackRock World Mining E (EUR) 24,16% 34,14%
BlackRock World Gold E (EUR) 10,18% 16,85%
BlackRock World Gold E (USD) 10,30% 16,75%
DWS Invest Gold and Precious Metals NC 0,8% N.A.
SGAM FE Gold Mines F (USD) -5,77% 10,97%
Fonte: Bloomberg. Rendibilidade em euros líquida de impostos. N.A.= Não aplicável. 30 de Abril de 2008