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A credibilidade de uma oportunidade perdida

José Carlos Carvalho

O líder do PSD, Rui Rio, quer ganhar “credibilidade” e ser diferente dos outros. Mas nunca chegará a esse objetivo se continuar a perder momentos raros como a entrevista à TVI. Para ser credível é preciso saber aproveitar as oportunidades que se têm pela frente

Vítor Matos

Vítor Matos

Editor de política

A gestão do silêncio e o uso da palavra não definem só por si um líder, mas ajudam a perceber o potencial de um político. Rui Rio passou meses sem dar entrevistas, foi intervindo em declarações avulsas à comunicação social, e esta terça-feira à noite, quando falou para o país o ouvir durante 25 minutos na TVI, pareceu que não tinha muito para dizer. Foi preciso fazer um certo esforço para encontrar uma notícia na entrevista. O normal, num líder a gerir silêncios e ambiguidades, sobre quem recaem enormes expectativas, é aproveitar e vincar bem o momento raro em que escolhe usar a palavra, para alavancar o uso anterior que fez de ter ficado calado. É como ter uma folha em branco à frente e fazer um desenho com cores que se vejam. Mas parece que, perante a sua folha em branco, Rui Rio decidiu pintá-la de branco.

A política também é feita de ironias - e ontem foi um dia irónico. A única notícia que se podia extrair da entrevista, depois de bem peneirada, foi o facto de Rio admitir que se o Orçamento da “geringonça" não passasse e o Governo caísse, o PSD formaria novo Executivo com o CDS. Vamos deixar de parte o facto de Rio logo a seguir ter negado o que acabara de dizer, admitindo que o OE vai passar, porque há aqui um aspeto mais relevante: Rui Rio perguntou ao CDS se estava disponível para essa mesma estratégia? O Expresso já ouviu dirigentes centristas agastados com o facto de parecerem um apêndice descartável à disposição do PSD. Rui Rio articulou-se com Assunção Cristas sobre este cenário?

Parece que não, se tomarmos em consideração o que Assunção Cristas disse numa entrevista ao podcast de Daniel Oliveira, “Perguntar Não Ofende”, na TSF. Primeiro, a líder do CDS desgraduou a relação com o PSD ao dizer que poderia apoiar um Governo do PSD, mas através de um acordo de incidência parlamentar, em caso de não haver “convergência suficiente”. É claro que a líder do CDS não se identifica com a aproximação de Rio a Costa (na verdade até lhe dá jeito e margem de expansão). Mas Cristas foi mais longe, e a política tem destas ironias: deu por antecipação a chave para se interpretar o conteúdo da entrevista de Rui Rio. "Ainda não percebi exatamente o que ele [Rui Rio] é, com toda a franqueza, porque eu vejo muito ziguezague em muitas matérias. Aqui no Parlamento vemos isso frequentemente, mudanças de posições do PSD”, afirmou a Daniel Oliveira.

À luz do que disse Cristas, a entrevista de Rui Rio parece muito mais interessante, mas não a torna melhor. Se ninguém percebeu o que o PSD ia fazer no Orçamento do Estado (apesar de o Expresso já ter escrito que o partido votará contra), depois desta quarta-feira à noite ficamos na mesma, quando Rio diz que não vai dizer como vota um documento que não conhece. Portanto, quanto a Orçamento, continuamos sem perceber a estratégia do PSD.

Quanto aos professores, também não se percebe - e percebe-se bem a confusão de Cristas sobre ziguezagues quanto ao pensamento do líder social-democrata. Já houve dirigentes do partido a dizer que eram a favor da contabilização do do total do tempo em que as carreiras dos professores estiveram congeladas, embora Rio nunca tivesse ido tão longe. O mote era o Governo ter de cumprir o que prometeu. Agora Rio diz que a questão dos professores é justa, que a profissão se proletarizou e que é preciso encontrar uma solução intermédia - uma posição muito parecida à do Governo.

Daquilo que se percebe, já se sabia. Que é contra as 35 horas. Que seria mais austeritário que Costa, o que diz desde a campanha interna. Isto percebe-se, mas não se percebe o que ganha com isso. Só se for pela galhardia da coragem antieleitoralista. Rio gosta de parecer que não é um político como os outros e gosta de o dizer. Portanto, pode dizer coisas ao contrário do que diria um político convencional. Com o nível a que desceu o défice, Rio mantém assim o discurso do superavit. Nem Passos Coelho iria tão longe.

Rui Rio quer diferenciar-se pela “credibilidade” e pela forma diferente de fazer política. Mas para ser credível é preciso saber aproveitar oportunidades como esta e escolher bem o que se vai dizer - claro, coisas muito credíveis - para que as pessoas acreditem nele. A profissão de um político é exatamente isto: convencer as pessoas de que se tem razão para, num mercado eleitoral, vencer e levar a cabo um programa que esse líder pensa ser determinante para melhorar um país.

Ora neste aspeto Rio também esteve abaixo daquilo que é exigido a um líder do maior partido parlamentar. Se perder as Europeias, disse Rui Rio, não sairá da liderança do PSD, mas deixa já escrito uma parte da responsabilidade que lhe será imputada mais tarde: “Se o PSD tiver um resultado mais fraco, é mau. Se não subir, é mau. Se ganhar, aí é que é bom.” Uma lógica imbatível pela sua simplicidade, mas que não aproveita a ninguém. Derrotados à partida perdem sempre. É difícil não parecer ridículo quando se prometem vitórias impossíveis, mas a admissão da derrota raramente é um bom caminho.

Isto porque o líder do PSD está entalado entre duas realidades para poder sobreviver politicamente: o eleitorado que lhe dará ou não confiança e o partido que lhe dará ou não possibilidade de manter e ascender ao poder. Em relação ao eleitorado, é de duvidar que grande parte dos espectadores da TVI fizessem uma análise muito fina das subtilezas do discurso político de Rui Rio e aí pode ter capitalizado alguma coisa, embora não tenha sido empolgante. Quanto ao partido, continua a ser um desastre. Rio Só será líder enquanto o PSD quiser. Visto a partir de dentro, com as quebras nas sondagens de que desdenhou na entrevista, não encurtou a distância que já o separa de muitos dirigentes laranjas.

É certo que em Portugal o emprego mais difícil é o de líder da oposição. É certo que os líderes da oposição costumam ser acusados em geral de fazerem tudo errado até serem ungidos com o poder. Rui Rio terá na cabeça uma estratégia, mas até agora não se percebeu muito bem qual é. E esta oportunidade para a esclarecer já lá vai.