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Familiares das vítimas do "Bolama" querem justiça

Foi em 1991 que o navio naufragou em águas portuguesas. Mais de 15 anos depois os familiares dos marinheiros guineenses desaparecidos, exigem justiça e apontam o dedo a tudo ter acontecido num “processo não muito claro.”

Foram oito os guineenses que morreram a bordo do navio "Bolama", naufragado no já longínquo ano de 1991. O pedido para a reabertura do processo foi feito na passada segunda-feira, na Procuradoria-Geral da República em Lisboa, e hoje, os familiares dessas oito pessoas não calam a revolta e exigem ao Estado português “justiça e indemnizações.”

O navio de pesca afundou-se a quatro de Dezembro de 1991 a escassas milhas da barra do porto de Lisboa, depois de ter sido submetido a alguns melhoramentos técnicos, por uma empresa portuguesa, e dado como apto para navegar. O navio de pesca só viria a ser encontrado dois meses depois, ainda em águas territoriais portuguesas. Das 30 pessoas que estavam a bordo, apenas foram resgatados os corpos de oito tripulantes. Na altura o processo foi arquivado, por se ter chegado à conclusão que o acidente aconteceu por causas naturais. 

Morgado Tavares e José da Silva Lopes cujos irmãos faleceram no naufrágio do "Bolama" declararam à Lusa que o Estado português devia mandar reabrir o processo em tribunal e indemnizar os familiares das vítimas. “Morreram em missão de serviço. Há seguros de trabalho. Não morreram de doença, portanto os familiares têm direito a indemnizações. Exigimos que o Estado português faça justiça”, defendeu Morgado Tavares, antigo director da Polícia Judiciária guineense, revoltado com todo o “silêncio” que tem ensombrado este caso. Incansável, culpa ainda o estado português por não ter feito nada para resgatar os corpos das vítimas e  de ter colocado sempre "entravres insuperáveis à retirada do navio do fundo do mar".  

Se Morgado Tavares responsabiliza a inércia do Estado português, José da Silva Lopes também não esconde a sua indignação e realça a pouca transparência de um processo, que segundo ele, nunca foi “muito claro”.

Teorias e acusações

Silva Lopes lembra que um ano depois do naufrágio do "Bolama", um jornalista norueguês levou a cabo uma investigação, em que algumas pistas indicavam que o navio tinha sido afundado, por alegadamente, estar a transportar armas. “Esse jornalista estava a verificar a pista segundo a qual o barco foi afundado por ter sido atingido de propósito ao transportar armas para o Iraque”, lembra o guineense. Contudo, quando questionado pela Lusa, admite que tudo o que sabe sobre esta insólita história, soube apenas através da comunidade guineense que acompanhava o caso em Portugal. 

Morgado Tavares tem também uma versão dos acontecimentos que levaram à tragédia: "o navio foi alterado na sua estrutura de navegação", referiu, adiantando que desconhece se foi erro humano ou mecânico. 

Para além do Estado português, os familiares das vítimas também lançam acusações graves às autoridades guineenses e ao sócio da empresa Guialp, proprietária do navio, por terem feito “pouco ou nada” para se chegar à verdade. O sócio guineense a que se referem é Carlos Gomes Júnior, antigo primeiro-ministro e actual presidente do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).