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África no compasso do samba

O tema África já contribuiu por duas vezes para a vitória da escola de samba 'Beija-Flor', nos carnavais de 1978 e em 1983.

Três das maiores escolas de samba brasileiras - 'Beija-Flor', 'Salgueiro' e 'Porto da Pedra' - que desfilam no Rio de Janeiro na próxima segunda-feira de Carnaval, escolheram a África para os seus enredos, tema que volta este ano em força para a avenida, aumentando a já acirrada luta entre as favoritas ao título de campeã carioca de 2007.

A tri-campeã Beija-Flor ( vitoriosa nos carnavais de 2003, 2004 e 2005) decidiu  este ano prestar uma homenagem aos próprios elementos da famosa escola de samba de Nilópolis (município na região metropolitana do Rio de Janeiro), que são maioritariamente negros e mulatos. 

Segundo a Comissão de Carnaval, da qual faz parte o  'carnavalesco' Alexandre Louzada, "celebrar África é, acima de tudo, um momento de  memória, o resgate da herança que vem reafirmar o nosso compromisso genético. É um instante precioso, de lembrança ao povo brasileiro mestiço, que é também africano. É uma exaltação a todos que viveram o horror do cativeiro, mas que não deixaram aprisionar o espírito, a alma africana".

Os responsáveis pela escolha do enredo decidiram, porém, fugir da narrativa do "sofrimento vivido nas terras de escravidão", para mostrar em desfile "a majestade africana". Ou seja, "a África-Mãe e sua génese, a realidade e a realeza e outras tantas Áfricas, onde, de uma forma ou de outra, existiram reis e príncipes, rainhas e princesas, de reinados e reisados, de cortes e cortejos".

Nascida em 1948, a 'Beija-Flor', cujas cores oficiais são o azul e o branco, já conquistou o campeonato no Carnaval carioca oito vezes. Nos anos 70 e 80, o tema África esteve presente em dois enredos desta escola, intitulados ' Criação do Mundo na Tradição Nagô' e 'A Grande Constelação das Estrelas Negras'. Em 1989, apresentou um dos seus enredos mais polémicos, intitulado 'Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia', que trazia uma ala de mendigos e uma imagem do Cristo Redentor, que teve de ser coberta por ordem da Igreja Católica. 

A outra escola  a levar a África para a avenida é a  'Porto da Pedra',  da ilha de São Gonçalo, que teve origem nos anos 70 numa equipa de futebol, tendo no ano passado sido classificada em 12º lugar com o seu 'Bendita é tu entre as mulheres do Brasil'. Desta vez, o tema do enredo é 'Preto e Branco a Cores', com o qual a escola pretende comparar a África do Sul ao Brasil, chamando a atenção para a questão polémica do "apartheid".

Para isto, o 'carnavalesco' Milton Cunha - responsável pela escolha do enredo - decidiu prestar homenagem a dois grandes símbolos da luta contra o racismo e defensores da cultura negra. O ex-Presidente da África do Sul, Nélson Mandela (88 anos),  apresentado no samba-enredo como "o nosso herói Mandela", e o brasileiro Abdias Nascimento (93), ex-político e um dos fundadores da Frente Negra Brasileira indicado para o Prémio Nobel da Paz de 2004.

O enredo da  'Salgueiro', por sua vez,  inspira-se na  história das 'Candaces', uma dinastia de rainhas da África Oriental que comandaram um dos mais prósperos impérios do continente africano, antes da era cristã. Fundada em 1953, esta escola de samba da Tijuca (zona Norte do Rio de Janeiro) -que no Carnaval passado apostou no 'microcosmo' como tema do seu enredo tendo obtido apenas um 11º lugar -  pretende mostrar na Av.Marquês de Sapucaí, a vermelho e branco (as cores oficiais), "a saga das mulheres africanas e afro-descendentes, que mantêm em comum o laço de soberania real e espiritual sobre os seus povos".

'Mangueira' apresenta a história da Língua Portuguesa

O título do enredo da escola de samba 'Mangueira' é tão grande quanto a sua ambição de conquistar o título de campeã do Carnaval carioca de 2007. Com o 'Minha Pátria é minha Língua, Mangueira meu grande amor. Meu samba vai ao Lácio e colhe a última flor', esta agremiação carnavalesca - que já ganhou 18 títulos no Carnaval carioca - vai mostrar a verde e rosa (as cores oficiais da escola) como a língua portuguesa chegou ao Brasil, levada pelas caravelas do português Pedro Álvares Cabral, que descobriu o país.

O samba-enredo da 'Mangueira' exalta Camões, e diz que a escola "traz Lisboa para a Sapucaí". A dança tradicional portuguesa faz parte também da coreografia que a escola vai levar para a avenida. Estando prevista uma homenagem a Portugal, pelos dançarinos que fazem parte da 'comissão da frente da escola'. Quinze dos dançarinos desta ala vestirão fantasias feitas com tecidos e bordados típicos da região do Minho.

A 'Mangueira' - que desfila este domingo à noite na Marquês de Sapucaí - pretende mostrar a evolução da língua portuguesa desde o seu nascimento, passando pelo latim, até aos nossos dias. Ou seja, até chegar ao 'brasileiro', o Português falado no Brasil,  onde a língua de Camões recebeu influências de línguas indígenas como o tupi-guarani, e das línguas faladas pelos escravos negros, tais como o banto e o iorubá. 

A história da língua portuguesa segundo a 'Mangueira' contará com a participação de cinco intelectuais brasileiros, membros 'imortais' da Academia Brasileira de Letras - Ivan Junqueira, Domício Proença Filho, António Olinto, Nélson Pereira  dos Santos e Marcos Vilaça - que desfilarão em carros alegóricos, ao lado de  22 'imortais' da Academia Mangueirense do Samba, que fizeram a história da 'Mangueira'.