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Zé Pirata, mãos de artista

José Ferreira Marques, mais conhecido por «Zé Pirata», é funcionário das Águas de Coimbra e nas horas vagas um artista e escultor de sonhos.

«São os sonhos que me levam a criar» , diz José Ferreira Marques, mais conhecido por «Zé Pirata», um artista de mão cheia que perde a vida como funcionário das Águas de Coimbra, mas ganha o mundo, fora de horas e longe de todos, esculpindo sonhos e objectos de encanto, a partir de desperdícios como ferro-velho, borrachas e plásticos, em princípio destinados à sucata.

Zé Pirata herdou do avô o jeito para transformar o velho em novo e o desperdício em coisa útil, de preferência com toque de artista.

Na base de tudo podem estar, por exemplo, os acessórios dos contadores de água, que ele manuseia no seu dia a dia profissional: sejam borrachas e plásticos, seja ferro e aço, cujo destino corrente seria o caixote do lixo. Só que ele faz, a partir daí, verdadeiras obras de arte, peças de inequívoco valor artístico e, também (se não, especialmente) um ror de brinquedos que deliciam as crianças.

Fomos encontrar o Zé Pirata na sua oficina de sonhos, um local de resto até algo frio. Ficámos a saber que a sua função, enquanto profissional de nome José Ferreira Marques, é reparar os contadores de água, que precisam de ser afinados e calibrados, para garantirem contagens correctas. Desse trabalho resultam, normalmente, peças inutilizadas. Mas ali mesmo e já na pele de Zé Pirata, ele mostrou-nos como, ao olhar para essas peças inúteis, logo as vê com outras formas. E que podem ser, à base da criatividade, velhos contadores transformados em submarinos, «sidecars», o famoso foguetão soviético Vostok, ou a estação espacial Mir.

A prateleira da sala de reparação de contadores ostenta muitas outras relíquias: uma máquina a vapor, um avião, uma nave espacial, um carro de combate, um helicóptero, um Fórmula 1, enfim, um vasto conjunto de miniaturas concebidas por um sonhador e materializadas pela habilidade e talento das suas mãos.

Zé Pirata confessa, ainda assim, que não lhe dá muito trabalho transformar o velho em novo e diferente. Ao pegar, por exemplo, num contador, cujo destino seria a sucata, o ângulo pelo qual olha a peça sugere-lhe de imediato a «obra de arte» em que poderá transformá-lo.

Curiosamente, às mãos hábeis de Zé Pirata juntou-se o engenho do colega Carlos Pedrosa que, com um olhar de admiração pelas réplicas, decidiu produzir um circuito eléctrico capaz de as animar e movimentar. Surgiu dessa forma uma pequena central eléctrica, em que cada número corresponde a um dos brinquedos. Basta «dar à luz» para a hélice do avião rodar, as luzes do «robot» se acenderem ou o mecanismo das rodas de uma máquina a vapor ser accionado.

A criatividade de Zé Pirata leva-nos, ainda, a outros mundos. Tudo lhe sugere coisas diferentes. «São os sonhos!», garante.

Quando fez os aviões, foi um pouco pelo seu sonho de voar.

Por vezes, também recua no tempo, recriando elementos da história da humanidade. A título de exemplo, refira-se o sarcófago de Cleópatra, rainha do Egipto.

A partir de uma placa de madeira, decidiu dar-lhe nova forma: o feitio de um sarcófago, por fora e, por dentro, nada menos que uma prateleira para guardar CD, DVD ou qualquer outra coisa semelhante. «Fiz uma pesquisa na Internet sobre o rosto de Cleópatra e, depois, foi só reunir peças em desuso e dar-lhes outra utilidade», confessa.

A coroa da rainha foi feita a partir da rede dos antigos suportes de colchões. E, para decorar o sarcófago, recorreu aos acessórios de velhas máquinas de escrever, dispondo-os de forma a fazerem o rendilhado predilecto dos egípcios.

«É-me difícil estar sem fazer nada» , diz José Marques Ferreira. Daí que esteja, como garante, «sempre com as mãos e a mente ocupadas». À margem do seu trabalho profissional, ele dedica-se às artes, expressando-se também pela pintura.

Na sede das Águas de Coimbra está a decorrer, de resto, até 25 de Agosto, a exposição «Expressões com Arte» integrando um conjunto de telas em acrílico que, para Zé Pirata, são «expressão de mistério, ficção, sonhos».

O artista, de 34 anos, já realizou outras exposições, desde Coimbra à Galiza. Mas reserva, ainda, algum tempo para brincar com o seu filho de ano e meio. Ele está também a construir a sua própria casa. Ainda faz parapente e é constantemente solicitado para pôr a criatividade «ao serviço de alguma causa».