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"Zapatero é o meu melhor amigo na Europa"

A construção do TGV e planos conjuntos no campo militar dominaram a cimeira luso-espanhola que hoje encerrou em clima de sintonia política entre os dois países.

Ricardo Jorge Pinto

"Esta cimeira é um ponto de viragem nas relações entre os dois países", disse José Sócrates no encerramento da cimeira ibérica, em Braga. O primeiro-ministro português salientou o bom entendimento político com o Governo espanhol, dizendo mesmo que Zapatero tem sido o seu principal aliado na Europa.

"Eu tenho vários bons amigos na União Europeia. Mas queria dizer que Zapatero tem sido o meu melhor amigo", explicou Sócrates, perante o sorriso do primeiro-ministro espanhol. Zapatero retribuiu a simpatia e disse que também Sócrates tem tido um papel muito relevante na afirmação de Espanha no espaço comunitário europeu. "Saliento a firmeza com que Sócrates defendeu a escolha de Filipe Gonzalez para o grupo de reflexão sobre o futuro da Europa", afirmou Zapatero.

O tom de sintonia política dominou as pouco mais de sete horas de trabalho que preencheram esta cimeira ibérica. A lista de assuntos a tratar era muito longa, mas o trabalho mais demorado já vinha feito de casa. Por isso, os 20 ministros (dez de cada país) presentes neste encontro limitaram-se a acertar pormenores sobre dossiers complexos como os do Conselho de Segurança e Defesa, a cooperação estratégica na área da energia, ou a definição do projecto ferroviário de alta-velocidade entre os dois países.

A cooperação política na área militar foi a questão central desta cimeira, de resto salientada na conferência de Imprensa que Sócrates e Zapatero deram no final da manhã. Ambos se referiram aos avanços que foram feitos para a elaboração de estratégias conjuntas no campo da Defesa. "Aquilo que até há alguns anos eram segredos de Estado, que escondiamos um do outro, é agora alvo de partilha entre os dois governos", disse Sócrates, para realçar o espírito de coordenação entre as chefias dos estados maiores das forças armadas de Portugal e de Espanha.

Apesar desta declaração de transparência, ficou-se a saber muito pouco sobre este primeiro encontro do Conselho de Segurança e Defesa, para além de alguns planos de intenção. Os dois países compromenteram-se a analisar em conjunto os assuntos de intervenção em cenários operacionais de paz e de guerra internacionais, como por exemplo no que diz respeito ao Kosovo. Mas nada foi revelado sobre as matérias que constam das pastas dos chefes de Estado Maior das Forças Armadas de Portugal e Espanha.

Mais pormenores foram dados sobre a cooperação na área científica: memorandos de entendimento foram assinados entre os ministérios da Educação e do Ensino Superior, para melhor articulação entre estabelecimentos de ensino na península. "É preciso reforçar a afirmação dos nossos países nas redes de conhecimento global", afirmou José Luís Zapatero. "Temos a mesma visão para para o desenvolvimento na globalização do conhecimento", acrescentou José Sócrates. A construção do edifício do Laboratório Internacional de Nanotecnologia foi um dos exemplos que ilustram essa aposta na ciência, com um investimento com vocação para compartilhar conhecimento científico dos dois países.

O primeiro-ministro Sócrates salientou ainda a prioridade que será dada à rede de transportes ferroviários entre os dois países. E anunciou que ainda este semestre será colocado a concurso o projecto da rede ferroviária de alta-velocidade entre Poceirão e Caia. Sócrates disse que esta cimeira avalizou o projecto de TGV entre Porto e Vigo e entre Évora e Mérida, tendo ficado já consignadas verbas para estes troços ferroviários. Ficou ainda a promessa de que a ligação entre Lisboa e Madrid por TGV ficará concluída em 2013: "Nada justifica atrasos num projecto sobre o qual não podemos esperar mais".

Uma fonte do Governo português disse ao Expresso que esta cimeira foi muito relevante para a questão dos transportes ferroviários e que os ministros responsáveis por este dossier tinham sido especialmente pressionados para chegar a um entendimento de forma célere. "Sobretudo, ficaram abertos canais de comunicação para resolver mais rapidamente problemas que surjam na articulação dos planos de Espanha e Portugal para o TGV", disse a mesma fonte.

A cimeira ibérica tratou ainda de questões ligadas à energia, mas aqui os resultados foram menos visíveis. Sobre as redes de electricidade e de gás, os avanços não foram significativos, confessou ao Expresso uma fonte do Governo. Na conferência de Imprensa final, Zapatero reconheceu que a estratégia para encontrar alternativas à dependência da rede de gás da Rússia não foi contemplada neste encontro. Ainda assim, terá havido avanços no campo das energias renováveis e Zapatero referiu a importância de criar mais projectos conjuntos de energia solar e eólica.