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«Voltaria a ser da PIDE»

O ex-inspector da PIDE foi uma das figuras mais temidas da polícia militar mas revelou que morreria «de consciência tranquila».

ENTROU para a polícia da ditadura em 1937, apenas com 21 anos, como agente praticante. Privou com quase todas as figuras gradas do Estado Novo e cruzou-se com a nata da Oposição. Durante 37 anos foi um dos operacionais mais importantes e temidos da PIDE. Soube do 25 de Abril de 1974 através de um telefonema de um amigo muito especial, o chefe da polícia espanhola: «António, sai daí rapidamente porque vais ter problemas...»

António Rosa Casaco nasceu a 1 de Março de 1915, em Rossio ao Sul do Tejo (Abrantes). Oficialmente, é filho de pai incógnito. Um pai que, no entanto, está bem identificado e conheceu perfeitamente: António da Silva Martins Júnior, ex-campeão de tiro e participante nos Jogos Olímpicos de 1924, em Paris. O mesmo pai de dois conhecidos clínicos, - António e Francisco Gentil Martins, este último o oncologista que chegou a ser bastonário da Ordem dos Médicos.

Da mãe, Joana Rosa, diz que era «uma rapariga bonita, mas muito pobre e humilde». Ao contrário, o pai provinha de uma família abastada e viria a ser dono de uma panificação. A história, bem típica, é a «do ricaço, do cacique, que abusa das raparigas novas e bonitas», para logo as abandonar à sua sorte. O apelido Casaco foi escolhido pela mãe, que o terá ido buscar a familiares longínquos.

A condição de bastardo deixou marcas profundas. «É sempre vexatório, uma vergonha.» Aos 83 anos, ainda se refere ao pai como «o gajo». «Não posso ter consideração nenhuma por ele», explica. «Nunca quis saber de mim.» A humilhação foi tal que se sentiu compelido a forjar um pai, a que deu o nome de António Rodrigues Casaco, que a partir de certa altura passou a constar dos seus documentos. Um personagem inexistente. «É uma invenção minha.» Enquanto os meio-irmãos estudavam, o jovem António não concluiu sequer a instrução primária. Ficou-se pela frequência das chamadas escolas regimentais, em Abrantes.

A meninice e a juventude não deixaram recordações felizes. «Tive uma infância miserável, deprimente, de extrema pobreza. Foi uma fase muito dolorosa.» Começou a trabalhar com dez anos, no Rossio, como aprendiz de marceneiro, ainda antes dos militares derrubarem a I República. Aos 15, já com Salazar a afeiçoar-se ao poder, rumou para Lisboa, para casa de uma tia. Foi nessa altura, assevera, que calçou o primeiro par de sapatos. Na capital trabalhou ao balcão numa das duas leitarias do tio. Foi por esta altura que descobriu o escondido gosto pela leitura. «A primeira obra a sério de que me lembro foram Os Três Mosqueteiros

Na idade de ir às sortes, regressou ao Rossio e alistou-se, como voluntário, no Grupo Misto de Artilharia Montada nº 24, em Abrantes. O comandante era o coronel Júlio Lourenço, que, à época, pasme-se, acumulava com o cargo de adido militar na Embaixada de Portugal em Madrid.

Em 1936, de novo civil, tentou a sina uma vez mais na capital, onde os tios o voltaram a acolher. Na vizinha Espanha rebentara a guerra civil; uma vaga de nacionalismo, soprada pelo nascente Estado Novo, inundara o país. «Fui dos primeiros a alistar-me na Legião Portuguesa. Já tinha tendência para ser das direitas!»

Admissão na PVDE e primeiro louvor

Desempregado e com horizontes profissionais diminutos, lembrou-se de recorrer ao seu ex-comandante. «Pedi-lhe uma cunha, para fiscal dos abastecimentos.» Azar: estava demasiado longe de possuir a escolaridade mínima. Solícito, o coronel Júlio Lourenço sugeriu a polícia do irmão Agostinho, que era, nem mais nem menos, primeiro director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), a polícia política da ditadura, criada em 1933, e a necessitar de gente nova e diligente. Aceitou. Ao concurso, apresentaram-se quatro candidatos. Em primeiro lugar ficou Artur Simões Cascas, futuro vice-cônsul em Roterdão e que «falava sete línguas». Casaco ficou em segundo lugar. Instado a declarar quantas línguas dominava, não se atrapalhou e disse duas: «Português e brasileiro.» Nos exames físicos, contudo, deu cartas. «Era um atleta, tinha um físico bestial.»

Admitido na PVDE em 12 de Janeiro de 1937, começou como agente praticante, ganhando «700 escudos ao mês». Após rápida passagem pela sede, na António Maria Cardoso, foi colocado no Porto. Seguiu-se a fronteira de Vila Real de Santo António. No Algarve, fez gala dos dotes de desportista e deu aulas de natação às meninas de Monte Gordo.

De novo em Lisboa, estagiou com o famoso capitão Catela, o número dois da polícia, «mas que era o seu verdadeiro cérebro». Em 1938 contribui para detectar uma tipografia clandestina do PCP, para os lados do bairro lisboeta da Picheleira. Foi o seu primeiro «troféu de caça», a merecer um louvor, datado do último dia de 1938, do punho do próprio capitão Agostinho Lourenço, que o elogiou como «um dos funcionários mais activos e prometedores desta Polícia». No dia imediato era promovido a agente de 3ª classe.

Agradado com o novo pupilo, o capitão Catela nomeou-o para uma missão muito especial: correio diplomático entre Lisboa e o Governo do generalíssimo Franco. Em plena guerra civil. À partida, Casaco não possuía atributos especiais para a tarefa: «Não conhecia a Espanha nem falava espanhol - nada!» Os superiores, contudo, viram nele o agente indicado. Durante quase uma década assegurou a ligação diplomática entre o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco. Munido de um passaporte diplomático («era o nº13»), ia e vinha, «pelo menos uma vez por semana», de comboio.

O destinatário era o diplomata Pedro Theotónio Pereira, acreditado como agente especial - logo depois embaixador de Portugal junto do regime franquista - e que foi acompanhando a lenta progressão das forças que se haviam sublevado contra a República democrática. Armado com uma pistola Walther, de 7,65 mm, o primeiro destino começou por ser Salamanca; seguiu-se Burgos - durante algum tempo a capital dos revoltosos - e, finalmente, Madrid. Entre o chefe do Governo e o embaixador fora instalado um telefone do Estado, «directo, com nº 54». A correspondência «do presidente Salazar levava-a eu, escondida no peito, numa bolsinha especial». Dentro do envelope dirigido a Theotónio Pereira, muitas vezes ia «um outro, destinado ao próprio Franco».

Entre o correio especial e o diplomata teceram-se relações muito para além das profissionais. Quando lhe nasceu o primeiro filho, em Junho de 1942, Casaco fez questão que o padrinho fosse o embaixador e ainda delfim de Salazar. O varão tomou precisamente o nome de Pedro. A mãe, era Ivone Viana do Espírito Santo e Silva, com quem o polícia se casara no dia de Natal de 1939. Natural do Porto, e ao contrário de uma versão muito difundida, a senhora de Rosa Casaco não pertence à família dos conhecidos banqueiros.

Durante alguns anos, as cartas de Salazar foram-lhe entregues pelo chefe dos serviços de segurança de S. Bento. Um dia, contudo, Salazar terá mostrado curiosidade em conhecer o disciplinado e competente enviado. «Mandou-me chamar e fez um comentário: 'Não sabia que era tão novo!' Deu-me a carta para as mãos, com a recomendação de que tivesse o máximo cuidado.» Mais tarde, o portador passou a receber a correspondência do próprio Salazar, «com o lacre ainda quente. Era um homem muito austero, mas gostava de mim».

Em 1943, nasceu o comboio rápido Lusitânia-Expresso, entre Lisboa e Madrid. «Começou por ser criado especialmente para o correio diplomático.» A ideia parece ter partido do próprio Theotónio Pereira, «que moveu as suas influências junto das administrações da CP e da Renfe, para criar um comboio directo». Nele seguiam muitos outros emissários diplomáticos. «Íamos no Wagons-Lits. Eu ficava sempre na cabina-cama nº 13, que estava reservada em permanência.»

Uma vez, recebeu a carta de Salazar muito tardiamente, mas com instruções de que a missiva teria de ser entregue no destinatário impreterivelmente na manhã seguinte. «O comboio já tinha saído há muito do Rossio, de modo que fui num Mercedes tentar apanhá-lo no Entroncamento. Chegámos tarde. Chamei o chefe da estação, Sr. Frutuoso, e dei-lhe ordens para mandar parar o comboio em Ponte de Sor. Ele olhou para mim e fez menção de não me obedecer. Mostrei-lhe então o sobrescrito, com a letra do Salazar, e disse-lhe: 'Por ordem do Sr. Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar, mande parar o comboio.' E ele mandou. O comboio ficou umas duas horas em Ponte de Sor, até eu lá chegar.» A mensagem era realmente importante: tratava-se, nada mais nada menos, que a comunicação oficial de que o Governo português decidira, finalmente, ceder a base açoriana das Lajes às forças aliadas.

Guerrilheiros fuzilados

Por uma única vez, o polícia-correio foi recebido pelo generalíssimo. Foi já em plena Guerra Mundial. Na ausência forçada de Theotónio Pereira em Madrid, Salazar incumbiu Casaco de entregar pessoalmente uma carta a Franco, no Palácio do Pardo. «Ele nunca se esqueceu de mim.» Com efeito, passado um ror de anos, voltaram a cruzar-se na feira de Sevilha. «Quando me viu, saudou-me amigavelmente com a mão.»

As longas horas das viagens eram repartidas entre a farra e a leitura. «Lia todo o tipo de literatura, mas sobretudo romances.» Grande parte da sua vasta cultura (para um homem sem estudos...) adquiriu-a no interminável vaivém entre as duas capitais.

Em Madrid, conheceu o chefe dos serviços secretos da polícia espanhola, Lisardo Alvarez Perez. «Ele podia ser meu pai - tinha uns bons 40 anos a mais do que eu... O Theotónio Pereira foi quem me pôs em contacto com ele.» Quando Lisardo morreu, foi substituído por Vicente Reguengo. Entre Casaco e Reguengo cresceu uma sólida amizade, incólume durante décadas. Foi graças a essa relação pessoal com a alta hierarquia da secreta espanhola que «se conseguiu uma ligação entre as duas polícias». A confiança era grande: «Eu entrava na sede da DGS, em Madrid, com a mesma facilidade com que entrava na sede da PIDE» - a Polícia Internacional de Defesa do Estado, que sucedeu à PVDE no final da II Guerra.

Casaco chegou, inclusivamente, a prestar alguns serviços às autoridades espanholas, de que evita falar. Um deles - que diz não gostar de recordar - foi a devolução de um grupo de guerrilheiros republicanos, que haviam procurado refúgio na serra do Gerês. «Eram uns três ou quatro e tinham sido levados presos para Lisboa. Coube-me a mim levá-los numa carrinha para Badajoz, onde os entreguei às autoridades. Foram imediatamente fuzilados.» Garante não ter assistido à execução dos rebeldes. «Mas ainda ouvi os tiros.»

Com o fim da Guerra largou a função de correio diplomático, que lhe valera várias promoções. Agente de 1ª desde 1945, participou no concurso aberto em 1950 para chefe de brigada. «Chumbei, mas no concurso seguinte fiquei em primeiro.» Ascendeu a esta categoria em 1951, com o nº 17/50. Em Lisboa, trabalhou nos Serviços Reservados, onde se dedicou durante alguns anos à actividade preferida da PIDE: a caça aos comunistas. Seguiu-se a chefia do posto de fronteira no aeroporto da Portela, onde conheceu Humberto Delgado. Em 1957, foi destacado para os Açores, onde montou a sede da delegação de Ponta Delgada e os postos de Angra do Heroísmo, Lajes e Santa Maria.

Em Julho de 60, conseguiu a promoção a subinspector - categoria até então preenchida por oficiais milicianos recrutados na GNR. «Fui o primeiro inspector a vir de baixo e a fazer toda a carreira.» Ascensão simultânea tiveram Fernando Gouveia e Joaquim Monteiro, muito mais velhos.

Sampaio sob escuta

Em Abril de 1962, Salazar promoveu uma profunda remodelação no topo da PIDE. Afastado o coronel Homero de Matos, o cargo de director-geral foi ocupado por Fernando da Silva Pais, um major vindo da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau. Silva Pais apressou-se a nomear para subdirector-geral Agostinho Barbieri Cardoso, que anos antes se incompatibilizara com Homero de Matos, a ponto de ter deixado a polícia. O regressado Barbieri - que nunca mais deixou de ser o homem-forte da PIDE - procedeu a um sério reajustamento na hierarquia, com destaque para a nomeação de Álvaro Pereira de Carvalho para director da poderosa Secção Central. Rosa Casaco foi dos que mais beneficiou desta alteração na cúpula. Logo em Julho de 1962, ultrapassando as prioridades da escala de antiguidades, foi promovido a inspector, encarregado da Intercepção Postal, uma das áreas nevrálgicas de actuação. Um dos principais operacionais da PIDE, esteve envolvido durante vários anos na chamada «Operação Outono» - ou «operação de cerco e aniquilamento do general Humberto Delgado», como lhe chamaram Alfredo Caldeira e Santos Carvalho, os dois principais investigadores do crime.

Após a morte de Delgado, em Fevereiro de 65, manteve-se na Intercepção Postal. Nega, porém, que tenha dirigido as escutas telefónicas - «nunca tive responsabilidades nessa área». O que não significa que não tivesse acesso a elas. «Lia muitas vezes os relatórios das escutas.» Incidiam sobretudo em personalidades da Oposição, mas também do regime. Os membros do Governo, porém, «nunca estiveram sob escuta», afiança. O que não obsta a que não tenham sido vigiados antes ou depois da sua passagem pelo poder. Admite tal ter acontecido com Adriano Moreira, ex-ministro do Ultramar, e Craveiro Lopes, ex-Presidente da República. Sobre figuras da Oposição, cita o actual Presidente, Jorge Sampaio: «Esteve sob escuta telefónica depois de ter saído da Universidade, ainda jovem advogado.»

CIA e secreta espanhola

Na António Maria Cardoso, ocupava uma sala contígua à de Silva Pais. «Era o gabinete mais bonito da polícia, com frescos no tecto.» No rescaldo do assassínio de Delgado, as suas relações com Barbieri e Pereira de Carvalho foram-se degradando - com efeitos que lhe seriam nefastos.

No âmbito da repartição de contactos a nível internacional coube-lhe, com toda a naturalidade, a Espanha. «Tinha acesso directo ao número um e ao número dois da polícia espanhola» - Eduardo Blanco Rodriguez, director-geral da DGS, e Vicente Reguengo, comissário-chefe da Brigada Política e Social. Conheceu igualmente Carlos Arias Navarro, o chefe da DGS que viria a ser, sucessivamente, presidente da Câmara de Madrid, ministro do Interior e primeiro-ministro do regime de Franco. «Foi grande amigo meu. Era um homem brilhantíssimo.»

Esta proximidade gerou a suspeita e a acusação, muito difundidas, de que trabalharia para os serviços espanhóis - um libelo que classifica de repugnante. «Tive as melhores relações com os serviços secretos espanhóis, muita amizade com os seus dirigentes, mas quanto a inconfidências em detrimento da política do meu país, nunca!» A colaboração entre os dois serviços era «mútua, porque o inimigo era o mesmo», mas ela «funcionou sempre mais a nosso favor do que o contrário».

Barbieri Cardoso era quem tinha mais contactos internacionais: Itália, Bélgica e, sobretudo, França. Quanto à CIA, Casaco é bem mais cauteloso do que quando fala de outros serviços secretos. Haveria antenas da CIA na PIDE? «Claro que havia.» O único nome que avança é o do então inspector Abílio Alcarva. «Sabia-se que trabalhava para a CIA.» De Pereira de Carvalho, nada adianta.

O próprio Casaco chegou a ter contactos assíduos com o chefe da base da CIA em Portugal, Rudolph Edward Gomez (que esteve em Lisboa entre 1969 e 1973, como adido económico). Travaram conhecimento quando este americano de sangue asturiano requereu o auxílio da PIDE «para identificar o autor de uma carta ameaçadora» enviada à Embaixada dos EUA. O interesse mútuo deu origem a «relações de amizade, com permuta de prendas pelo Natal e de jantares em minha casa e no apartamento dele», no aristocrata bairro da Lapa. A «amizade desinteressada e genuína» com Gómez manter-se-ia por muito anos. A ponto de, ao passar por Nova Iorque depois do 25 de Abril, Casaco ter sido surpreendido com um inesperado convite do americano: «Para jantar no seu clube privado - 'The Key', na Rua 57 Este.»

Em África operou pontualmente. Para além de algumas idas a Moçambique, viajou até Dakar, Leopoldville, Brazaville, Monróvia. Fazer o quê, não conta - para além do clássico controlo dos informadores, que se escusa a identificar.

Apanhado no «Escândalo Matesa»

Em finais da década de 60 esteve à beira de ser colocado em Angola. Mexeu-se o suficiente para o evitar, mas não impediu a transferência para o Porto, como subdirector. Uma despromoção, para a qual muito contribuiu o seu envolvimento no famoso «caso Matesa».

Tudo começou em 1969, quando o banqueiro e velho amigo Jorge Farinha Piano o abordou. Presidente do Banco Viseense, Piano estava em sérias dificuldades financeiras, fruto de um arriscado negócio de tráfico de divisas, em parceria com o grupo industrial Matesa - Maquinaria Têxtil del Norte, S. A., com sede em Barcelona. Com a colaboração de «uma organização especializada em contrabando de divisas, estabelecida na Galiza», Piano recolhia pesetas em Barcelona, cambiava-as no seu banco por dólares, que eram depositados em bancos norte-americanos, obtendo uma suculenta margem de lucro. Em princípio a transacção tinha cobertura legal, uma vez que «não existiam, na época, quaisquer restrições quanto à entrada de divisas no nosso país». Só que Jorge Piano ter-se-á entusiasmado em demasia e «passou a efectuar esses depósitos com alguma antecedência», tendo, a dado passo, ficado «credor de muitos milhões de pesetas», já que os contrabandistas galegos não chegavam para as encomendas. Em pânico, Piano recorreu aos bons ofícios do amigo inspector. «A amizade que nos unia e os favores que lhe devia levaram-me, cândida e infantilmente, a ajudá-lo.» Falou no caso a três subordinados «da máxima confiança», que sabia atravessarem graves dificuldades económicas. Todos eles alinharam, «a troco de uma comissão choruda», em ir até à Catalunha e trazer as necessárias pesetas. «Fizeram várias viagens, sempre em carros próprios, solucionando os seus problemas e os do banqueiro.»

O negócio - que envolveu a exportação ilegal para o estrangeiro de 5400 milhões de pesetas! - acabou por ser descoberto pelas autoridades espanholas. Em Maio de 1970, um tribunal condenou o patrão da Matesa, Juan Vila Reyes, e 47 colaboradores. Ao empresário foi fixada uma multa de 1600 milhões de pesetas e uma pena de três anos de prisão. Igualmente condenados, mas à revelia, foram dez estrangeiros, dos quais quatro portugueses: o banqueiro Jorge Piano (que levou três anos de prisão) e os três funcionários da PIDE (um ano cada). Sentindo-se acossados, os polícias pediram protecção a Casaco, que resolveu assumir «a responsabilidade total» do caso. Disso mesmo deu conta à direcção da PIDE. «Afirmei-me culpado e, consequentemente, assumia todo o ónus inerente a essa situação, inclusive incorrendo na pena de demissão, sob condição de que os meus funcionários ficassem ilibados.» Silva Pais e Barbieri aquiesceram. O caso subiu a Gonçalves Rapazote, o ministro do Interior que tutelava a DGS (Direcção-Geral de Segurança, a designação que a PIDE tomou em 1969) e que «queria correr comigo». O resultado foi um processo disciplinar, instaurado em 21 de Maio de 1970 a Casaco e aos três subordinados. À falta de provas, os processos foram arquivados. Mas nem por isso deixaram de ser castigados: os três agentes foram transferidos para Moçambique e o inspector para o Porto.

Mostrando-se seriamente pesaroso («É a página mais negra da minha vida!»), Casaco faz questão de esclarecer que não cometeu «qualquer crime de corrupção». E que não recebeu «qualquer quantia em dinheiro» por parte de Jorge Piano.

O caso revelou-se fatal para as suas ambições. Apanhado em flagrante e já sem a cobertura de Salazar, os seus adversários na PIDE não perderam o ensejo. «Foi um argumento que eu dei, estupidamente, aos gajos» - como se lhes refere. Preterido outrora na promoção a inspector-adjunto e na nomeação para director de serviços, acabou por ser chutado para o Porto, como subdirector da delegação. Tomou posse em Maio de 1971, dedicou-se aos negócios bolsistas e imobiliários. «Ganhei muito dinheiro na Bolsa, muito mesmo.» Fez sociedade com Manuel Alves Aldeia, entre outros empresários e especuladores.

Um dos últimos negócios que tinha em mãos era a venda de um terreno no Campo Grande (em Lisboa), onde hoje está o Hotel Radisson. No livro O Caso Delgado - Autópsia da Operação Outono estimava-se a sua fortuna, à data da revolução dos cravos, em mais de 100 mil contos. Confrontado, reage com uma gargalhada: «É absolutamente exagerado. Nunca tive tanto dinheiro na vida.»

«Soube do 25 de Abril por um telefonema»

Os serviços secretos foram surpreendidos pelo 25 de Abril. Há muito que corriam rumores sobre conspirações dos oficiais intermédios. O frustrado golpe das Caldas da Rainha, em 16 de Março de 1974, devolveu a «tranquilidade» à DGS. «Até eu acreditei que a coisa não se repetiria.» Puro engano. A revolução saiu vencedora, entre outras razões, «por ineficácia» dos serviços secretos. Apontados a dedo são Pereira de Carvalho e Barbieri Cardoso.

A primeira notícia sobre o golpe foi-lhe dada pelo chefe da polícia de... Espanha. «Pouco depois da meia-noite» de 25 de Abril: «O meu amigo Vicente Reguengo telefonou-me - 'António, sai daí rapidamente porque vais ter problemas.' Só de madrugada é que percebi que a coisa tinha um aspecto grave.» A delegação da DGS no Porto estava instalada na Rua de Angra do Heroísmo. Ao princípio da tarde recebeu de Lisboa ordens superiores «para abrir fogo sobre a multidão». Quem as transmitiu? «O Silva Pais, pelo telefone, directamente para mim. Ponderadamente, não aceitei as ordens. Fiz mesmo o contrário: mandei recolher as pistolas-metralhadoras e fechar as janelas.»

O edifício foi ocupado no dia 26 pelos militares revoltosos, chefiados por um tenente-coronel - «creio que é agora um general muito conhecido». Depois de «longos conciliábulos, consegui convencer o oficial que nos devia libertar, não na cidade do Porto, mas nos arrabaldes, longe da perseguição de elementos comunistas que a todo o transe desejavam linchar-nos». Quase uma centena de funcionários da dissolvida DGS foram metidos em dois camiões militares, protegidos por um carro blindado «Chaimite», e tomaram uma estrada secundária em direcção a Braga. Perseguidos por um número crescente de viaturas civis, e «temendo o pior, solicitei ao oficial subalterno que comandava a coluna que atravessasse o 'Chaimite' na estrada», por forma a barrar-lhes o caminho. A manobra resultou. Os camiões militares continuaram, permitindo, mais à frente, que os pides saltassem dos camiões em andamento, escapulindo-se no meio dos pinhais que rodeavam a estrada. «Fui o último a saltar, acompanhado do meu secretário. Antes, e a pedido de um alferes, dei-lhe o meu 'crachat' da DGS, como recordação.»

De uma pequena fábrica, estabeleceu contacto telefónico com a mulher. O ponto de encontro foi a Póvoa do Varzim, de onde seguiu até Viana do Castelo: «No meu carro, um Lancia Coupé 1300, de dois lugares, que andava desalmadamente. Se fosse o caso, ninguém nos apanhava.»

A noite foi passada no Hotel Rali. Na manhã de 27 tomou a estrada para Chaves e passou «tranquila e legalmente a fronteira», em Vila Verde da Raia. Ao preencher a respectiva ficha, na alínea destinada à profissão, escreveu «retirado». Em Leon dormiu no Parador de S. Marcos, e no dia seguinte alcançou, sempre de carro - e não de helicóptero, como chegou a ser noticiado -, a capital espanhola.

Em Madrid dirigiu-se logo à sede dos serviços secretos, na Puerta del Sol, «um edifício que não tinha segredos para mim». Avisado, foi prontamente acolhido pelo velho e fiel amigo Vicente Reguengo, «que me prestou todo o auxílio necessário. Ele e o coronel que chefiava os serviços secretos do Exército». Ficou instalado, com a mulher, numa residência pertencente à DGS espanhola. A 6 de Junho partiu para a República Dominicana, com um documento em nome de António Roque Carmona. «Era um passaporte português», um dos vários em branco com que se municiara em Portugal - «tive o cuidado de me prevenir».

A escolha desta república caribenha foi ditada pelas relações de amizade que estabelecera com o ex-Presidente Hector Trujillo, um ditador latino-americano que nos anos 60 pedira asilo a Portugal. O regime dominicano recebeu-o de braços abertos e facilitou-lhe a vida: «Incluindo o acesso a alguns negócios que me permitiram alguma tranquilidade financeira.» Entre os seus «protectores», faz questão de mencionar o chefe dos serviços de segurança, os ministros da Defesa e dos Estrangeiros e o próprio Presidente da República, Joaquim Balaguer.

Seis meses depois deixou a República Dominicana com um passaporte daquele país, passado em nome de Filipe Tavares. «Não obstante ter vivido em ambientes de vida dura, também era - e sou - um sentimental, tendo saudades de toda a minha família.» Quando chegou a Madrid, no Natal de 1974, exibia uma barba grisalha, que não mais haveria de cortar. Nessa altura, já o seu nome estava indiciado entre os assassinos de Delgado. Apesar disso, as coisas não estavam muito diferentes: «As autoridades espanholas continuaram a considerar-me e a aceitar-me como um amigo de sempre.»

Há quem o referencie como tendo colaborado com o ELP e o MDLP, organizações de extrema-direita que operavam em 1975 a partir de Espanha contra o regime implantado em Portugal. Casaco nega. «Em Madrid não fazia nada. Vivia dos rendimentos obtidos em S. Domingos.» Também nega a maior parte das acusações, feitas em jornais e livros, que o deram como contrabandista, traficante de divisas, armas, droga: «Tudo falso. É claro que os autores não provam nada. Trata-se de um arrazoado de calúnias infames, lançadas sobre um homem exilado no estrangeiro e que não se podia defender. O assunto mereceria ir, um dia, a tribunal.»

Suborno no Brasil

Durante o chamado «Verão Quente» de 1975 - que faz gala de classificar de «Era do terror» - dois dos três filhos emigraram para o Brasil. O pai juntou-se-lhes em 25 de Outubro. No Serviço de Fronteiras do Rio de Janeiro serviu-se de «um punhado de dólares e cruzeiros» para subornar dois agentes e trocar a papelada dominicana por «um documento oficial comprovativo de que tinha entrado legalmente no Brasil». Munido desse papel, deslocou-se ao consulado-geral de Portugal, onde se registou - com uma falsa identidade - e obteve documentação portuguesa: «Para mim e para minha mulher e, logo a seguir, com a ajuda dos referidos agentes, obtive a Carta 19, de residente.»

Instalado, «com esta enorme facilidade», no Brasil, viveu sucessivamente no Rio, em Fortaleza e em S. Paulo.

Beneficiando da experiência adquirida em Portugal, dedicou-se ao ramo imobiliário. No arranque contou com a ajuda financeira de alguns amigos, entre os quais Jorge Piano que também se tinha mudado para o Rio, onde dirigia uma casa bancária: «Não teve a mais ligeira hesitação em financiar os negócios que eu, então, iniciava» - uma retribuição pela ajuda dada no «caso Matesa».

«Consciência tranquila»

Actualmente, reside «algures no estado de São Paulo», numa vivenda, na companhia da mulher («com quem vivi sempre em boa harmonia») e não muito longe de dois filhos.

Acompanha Portugal pela RTP Internacional e continua a ler muito, ainda que cada vez mais selectivo: «Só ensaios, memórias e biografias.» Romances já não, «tirando as novelas do Camilo», ou não fosse um «camiliano» indefectível... Queixa-se de dificuldades financeiras, mas todos os seus gostos, escolhas e atitudes - nos restaurantes que frequenta, nos vinhos que escolhe, na roupa e no «Rolex» que usa, no tabaco que fuma - parecem desdizê-lo.

Se houvesse uma máquina do tempo que lhe permitisse voltar para atrás, Casaco garante que «voltava para a PIDE outra vez». A Badajoz, ao encontro de Delgado, é que já não iria. «Nunca! Há coisas de que eu me arrependo - e essa é a principal. Não há o direito de tirar a vida a ninguém. Além de que foi uma estupidez» do ponto de vista político. «Outro erro» de que se penitencia é o envolvimento no «caso Matesa»: «A minha atitude foi canalha e indigna. Ainda hoje sofro, envergonhado, por ter tomado tal posição. Arruinou a minha vida.» Estas foram duas das «inúmeras faltas» que assume ter cometido durante a vida. «Se não fui nenhnhum santo, também não fui nenhum monstro, como me tentaram pintar.»

Declarando-se católico praticante - «desde que me conheço» -, António Rosa Casaco mostra-se um homem sereno. «Morrerei de consciência tranquila, designadamente em relação ao único crime de que me acusam - e de que não fui nem o autor material, nem o mentor. Nada me pesa, excepto os desgostos da vida e a pulhice dos homens.»