Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Voando sobre a ameaça terrorista

Apesar das ameaças e da confusão gerada nos aeroportos, a maior parte dos viajantes não altera os hábitos. Com rapidez, adapta-se às novas regras de segurança impostas pelo terrorismo.

Rob e Liz, um casal de nova-iorquinos que desde 2003 reside em Londres, partiram na quarta-feira para a costa italiana com as suas filhas Zoe e Lexi. A ameaça terrorista que paira sobre Londres desde o passado dia 10 não os deteve. De resto, esta não é a primeira vez que o casal sentiu na pele a ameaça. Rob trabalhava como «broker» num dos bancos de investimento localizados no World Trade Centre que explodiu nos ares a 11 de Setembro de 2001. «Foi um milagre não ter sido apanhado na explosão. Tinha acabado de sair do edifício quando o embate teve lugar», disse Rob ao EXPRESSO.

De certa forma, este encontro tão próximo com o terrorismo teve o efeito de o descontrair. «A vida continua, e não vamos deixar de a viver porque temos medo». Mas, relativamente à viagem desta semana, houve duas coisas que preocuparam o casal: a possibilidade da companhia Ryanair cancelar o seu voo e as restrições à bagagem de mão. «Viajar com duas crianças sem comida, sem livros ou brinquedos é um pesadelo. Mas, felizmente, as restrições foram levantadas e vamos poder levar algumas coisas», disse Liz mostrando um saco com livros de pintar, lápis de cera e autocolantes.

Rob e Liz não são os únicos a encolher os ombros e a continuar a viver como se nada tivesse acontecido. A avaliar pelos milhares de pessoas que esta semana embarcaram em aviões nos aeroportos de Londres, o atentado terrorista abortado no passado dia 10 pelas autoridades britânicas não alterou os planos de vida dos britânicos. Segundo as informações disponíveis, vão continuar a apanhar aviões para ir de férias ou para viajar em trabalho, do mesmo modo que continuam a andar de metro ou de autocarro.

No entanto, a forma de viajar para o estrangeiro vai mudar. Aliás, desde o 11 de Setembro de 2001, que novas medidas de segurança introduzidas nos aeroportos dificultaram a vida aos passageiros. Os períodos de «check-in» para as viagens aumentaram e foram introduzidas restrições ao nível dos objectos que se podem levar na bagagem de cabina. Desde o passado dia 10, as medidas aumentaram. Nos cinco dias a seguir ao atentado abortado, os passageiros não podiam transportar bagagem de mão, com excepção de um saco de plástico transparente onde colocavam a carteira, passaporte, talões de embarque, medicamentos com receita, óculos, biberões com leite (que tinham que ser provados em frente a um funcionário da companhia aérea).

Indemnizações em estudo

Estas restrições causaram um enorme caos em todos os aeroportos britânicos, pois o número de bagagens a colocar no porão dos aviões triplicou, o que provocou atrasos de horas para muitos voos. Por estas razões, as companhias aéreas British Airways e Ryanair estão a considerar exigir compensações ao Governo e processar as autoridades dos aeroportos. Segundo a BA e a Ryanair, os responsáveis geriram muito mal a situação. Em reacção aos protestos das companhias aéreas, o Governo aligeirou as restrições às bagagens de mão, mas está a concertar com os parceiros europeus medidas de segurança comuns à União Europeia.

Quantas às outras mudanças no quotidiano dos britânicos introduzidas na sequência do 11 de Setembro, estas são quase imperceptíveis, e em particular para a população branca. A polícia tem maiores poderes para fazer buscas a cidadãos, mas estas recaem mais sobre indivíduos de pele escura ou que enverguem traje muçulmano. A nova legislação antiterrorista, introduzida desde 2001 também trouxe novos limites às liberdades de expressão, de associação e de protesto.