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Vitória de Portas encolhe o partido

Menos um deputado, menos uma centena de militantes, um ex-vice-presidente afastado do congresso: as primeiras consequências das directas que reelegeram Paulo Portas

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Um dia depois de Paulo Portas ter afirmado, em conferência de imprensa, que a sua reeleição como líder reforça o CDS para fazer oposição ao Governo, o partido encolhe em várias frentes: perde um deputado na Assembleia da República, vê desfiliarem-se várias dezenas de militantes e tem um ex-vice-presidente, que era o conselheiro mais importante de Portas, impedido de ir ao congresso apresentar uma alternativa à estratégia oficial.

"Já não acredito na possibilidade de o partido evoluir por dentro. Nisto eu não participo", diz João Luís Mota Campos, um dos militantes que esta tarde vão anunciar em conferência de imprensa as razões porque decidiram desfiliar-se do CDS.

No grupo, que poderá chegar a uma centena, está o único deputado centrista que tinha feito parte da direcção de José Ribeiro e Castro, e única voz desalinhada do grupo parlamentar: José Paulo Carvalho. Destacado dirigente dos movimentos "pró-vida", Carvalho filiou-se no CDS a convite de Paulo Portas, que o incluiu nas listas das legislativas de 2005, e acabou por chegar à direcção do partido com Ribeiro e Castro. A ruptura com Portas e com o "portismo" vem desse período, e da forma como Castro foi derrubado no início de 2007. Agora é a saída do CDS, apesar de José Paulo Carvalho se manter no Parlamento - será deputado não inscrito, como Luísa Mesquita, ex-PCP. Ou seja, o CDS passa a ter apenas 11 deputados.

As razões das demissões

João Luís Mota Campos chegou a secretário de Estado da Justiça indicado pelo CDS, no governo de Durão Barroso, e também foi um dos dirigentes do núcleo-duro de equipa de Castro. Ao Expresso, adiantou as três principais razões para a demissão, após 25 anos como militante do CDS: primeiro, a "impossibilidade de qualquer espécie de debate dentro do CDS. O partido afunilou-se no culto de personalidade de Paulo Portas - ele diz como é e o partido faz".

Um bom exemplo desse estado de coisas, diz Mota Campos, é o que se passou com Nobre Guedes, que por ter divergido de Portas acabou por ser afastado do congresso, não conseguindo sequer ser eleito delegado. "Nobre Guedes acaba de provar o remédio de Paulo Portas, o que é justíssimo. Portas é como o monstro de Frankenstein, e acaba de se revoltar contra o seu criador."

Guedes já anunciou entretanto que vai continuar no CDS, apesar de culpar os dirigentes do partido pela sua não eleição como delegado ao congresso.

A segunda razão para a demissão deste grupo de militantes tem a ver com a "deriva ideológica e doutrinária" da actual direcção. O ex-secretário de Estado da Justiça dá os exemplos da "nova agenda" de Pires de Lima e de Teresa Caeiro, "com o apoio ao casamento homossexual, que não tem nada a ver com um partido democrata-cristão".

Se as duas primeiras razões são a constatação do que se passou ao longo deste ano e meio de liderança de Portas, a terceira tem a ver com a moção de estratégia que este apresentou nas directas, propondo que o CDS se relacione da mesma maneira com o PSD e o PS. "Quando Paulo Portas anuncia um partido disponível para viabilizar um governo de quem quer que seja, isso é pior do que a equidistância de Freitas do Amaral. É um princípio de puro oportunismo político."