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Violência sobre crianças nos países ricos atinge 10%

Os maus-tratos infantis são definidos pelos investigadores como acções ou inacções de pais ou cuidadores de crianças que causem danos, possam causá-los ou ameacem fazê-lo, mesmo sem intenção.

Dez por cento das crianças dos países ricos sofrem algum tipo de maus-tratos e apenas um em cada dez casos é investigado e provado, revela um estudo hoje publicado pela revista médica britânica 'The Lancet'. Trata-se de "um problema de saúde pública muito mais importante do que parece", considera Richard Horton, director da revista, que dedica a edição de Dezembro à questão.

Neste trabalho, investigadores de universidades britânicas e norte-americanas compilaram vários estudos realizados em países de rendimentos elevados (Europa Ocidental, América do Norte, Austrália, Nova Zelândia e Japão) e interrogaram pessoas sobre se sofreram maus-tratos e pais para conhecerem os seus métodos disciplinares.

Os maus-tratos infantis são definidos pelos investigadores como acções ou inacções de pais ou cuidadores de crianças que causem danos, possam causá-los ou ameacem fazê-lo, mesmo sem intenção. Dentro desta categoria entra ser testemunha de actos de violência íntima, desde comportamentos ameaçadores a violência ou abusos entre adultos que são ou foram companheiros íntimos ou membros da família.

Segundo Ruth Gilbert, do University College de Londres, cerca de uma criança em dez sofre anualmente alguma forma de maus-tratos (físicos, psicológicos, negligência, abuso sexual), apesar de as estimativas oficiais apontarem para números muito mais baixos, entre apenas 1,5 e 5%. Cathy Spatz, perita da City University de Nova Iorque, afirma que 4 a 6% das crianças sobre abusos físicos no conjunto dos países ricos.

Os abusos psicológicos abrangem cerca de 10% e o abandono, ou seja, a falta de cobertura das necessidades físicas, emocionais, médicas e educacionais de uma criança, afecta entre 1 e 15% da população infantil.

A negligência, apesar de não suscitar tanta atenção e preocupação, produz pelo menos o mesmo dano na criança e na sua vida adulta do que o causado pelos abusos físicos e sexuais. Pelo menos 15% das raparigas e 5% dos rapazes foram expostos a algum tipo de abuso sexual, que vai desde mostrar a menores material pornográfico até violação com penetração até aos 18 anos.

As violações com penetração afectam entre 5 e 10% das raparigas e entre 1 e 5% dos rapazes.

À excepção dos abusos sexuais, que são perpetrados por familiares ou conhecidos, a maioria dos maus-tratos são cometidos pelos próprios pais. Os abusos são infligidos geralmente a rapazes em idade escolar, mas são os mais pequenos, e mais vulneráveis, os que sofrem um maior número de mortes.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), morrem anualmente 155 mil rapazes menores de 15 anos em consequência de abusos ou negligência perpetrados pelos pais biológicos (80%) ou padrastos (15%).

Na União Europeia, quatro crianças num milhão morrem anualmente por homicídio, um número três vezes superior nos países da Europa de leste. Segundo os investigadores, os números são muito mais alarmantes nos países com rendimentos baixos e médios.

Entre as consequências dos maus-tratos, que podem provocar transtornos crónicos, estão dificuldades educativas, problemas de comportamento, de álcool e drogas, depressão ou stress pós-traumático.

A taxa de suicídios é muito elevada entre os jovens que sofreram maus-tratos na infância, havendo relatos segundo os quais um em cada cinco destes jovens tenta suicidar-se, uma percentagem que duplica a do conjunto da população juvenil.

Nas conclusões do estudo, os autores lançam um apelo para que se invista nos esforços para melhorar a detecção dos maus-tratos e a sua denúncia, bem como para melhorar a eficácia dos sistemas existentes para os prevenir

e erradicar. Uma tarefa, acrescentam, que deve envolver tanto familiares e conhecidos como outros agentes que estejam em contacto com as crianças (professores, médicos) e os serviços sociais e judiciais.