Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Vinte e seis anos numa cela

É o português preso há mais tempo. Condenado por homicídio, tornou-se traficante na prisão. Sai em 2020.

Rui Gustavo (www.expresso.pt)

Num dos últimos dias que passou em liberdade, Delfim Sousa apanhou o comboio 4922 na Estação de Benfica. Viajava com três amigos e um objectivo: o cofre de aço que trazia o dinheiro recolhido em onze bilheteiras. Era de noite e o comboio ia quase vazio. José Joaquim, o quinto elemento do grupo, estava na rua com um pé de cabra e uma missão: sabotar a linha e descarrilar a composição.

Segundo o acórdão do tribunal das Caldas da Rainha, Delfim, armado com uma G3, forçou o maquinista a entregar o cofre. Mandou-o para a rua e fugiu com os outros elementos do grupo. Um polícia à civil disparou contra os ladrões e foi ferido na troca de tiros. Delfim só conseguiu arrombar o cofre em casa e dividiu entre todos 4377 mil contos, uma verdadeira fortuna em 1983. O caso, inédito em Portugal, foi notícia nos jornais e a PJ demorou um mês a desmantelar o grupo, responsável por uma série de ataques a polícias e assaltos a ourivesarias e lojas de electrodomésticos. Foi considerado o cérebro e líder do bando e condenado a 20 anos de cadeia, o máximo na altura. Nunca assumiu ou confessou o crime do comboio - nem nenhum outro, aliás.

Na cadeia foi várias vezes apanhado com droga e pequenas armas escondidas na cela. Entrou em conflito com os guardas e os responsáveis das prisões por onde passou. E apanhou mais 20 anos de prisão num julgamento que juntou todos os processos por tráfico e posse de droga. A última condenação é de 2005 e desde então não voltou a cometer qualquer crime.

Delfim Sousa está preso desde 25 de Março de 1983, há 26 anos consecutivos, e é o recluso com mais tempo seguido de cadeia em Portugal. Nunca beneficiou de uma saída precária ou de qualquer tipo de liberdade condicional. Se não beneficiar de nenhuma atenuante, nem cometer mais nenhum crime, só vai acabar de cumprir a pena em Fevereiro de 2020. Terá cumprido 37 anos de prisão e quando sair terá 67. Entrou aos 30.

O Expresso pediu uma entrevista a Delfim Sousa, que aceitou. O pedido para uma visita à cadeia de Monsanto foi recusada pela Direcção-Geral dos Serviços Prisionais "por razões de segurança". A entrevista foi feita por escrito. Delfim está preso numa cadeia de alta segurança com o regulamento disciplinar mais apertado do país. Dorme numa cela individual, anda de farda e é sujeito a revistas regulares. "Tem tido um comportamento correcto e aqui não tem qualquer hipótese de traficar droga", diz um guarda do estabelecimento. Já pediu várias vezes para ser transferido, o que foi sempre negado. O advogado, Vítor Carreto, já levou o caso ao Supremo Tribunal de Justiça, que confirmou a sentença. Apesar da pena máxima em Portugal ser 25 anos, Delfim vai continuar preso.

Quem olha para a foto guardada numa moldura de madeira ou para as respostas cândidas escritas na letra quase infantil de Delfim Sousa dificilmente consegue imaginar o homem descrito nas várias sentenças dos tribunais. Ou no registo criminal de 64 páginas, que começa escrito à mão em 1977 e só acaba em 2005 num documento processado em computador. Preso pela primeira vez em 1977, cumpriu cinco meses por furto de um automóvel. Casou, teve um filho e no início dos anos 80 liderou um grupo de assaltantes de uma violência quase irracional. Num assalto a uma ourivesaria nas Caldas da Rainha, Delfim ficou à porta ao volante do carro de fuga. Quando apareceu um polícia, disparou a G3. O agente foi ferido e um homem que passava na rua morreu. Noutra ocasião, mandou uma granada contra um grupo de guarda-nocturnos. Não matou nenhum. E de acordo com um relatório policial chegou a vigiar e perseguir o inspector da PJ encarregado de o prender. Há um homem que o quer ver em liberdade: Luís Sousa. "O meu pai não é nenhum santo, mas alguém merece estar preso tanto tempo?".

A notícia da prisão de Delfim Sousa, em Março de 1983, ocupou pouco espaço nos jornais. O país estava mais preocupado com a inflação galopante (25%), com uma moeda fraca que chegou a desvalorizar 12% de uma só vez e com as taxas de juro que subiam acima dos 20%. O governo do Bloco Central (tomou posse em Junho) liderado por Mário Soares e Mota Pinto foi obrigado a pedir ajuda ao FMI e a impor uma política de austeridade. Foi o ano de "apertar o cinto". Só o 'O Tal Canal' de Herman José fazia o país rir-se das desgraças, com 'bonecos' que ainda hoje perduram (o Nelito, o Estebes ou o Tony Silva). As vitórias do Benfica no campeonato e na Taça de Portugal amenizavam o clima de depressão. O clube da Luz disputou a final da taça UEFA, em Maio, contra o Anderlecht, mas o golo de Shéu não foi suficiente para dar a taça aos encarnados, que perderam por 2-1 nas duas eliminatórias. Nesse ano, Fernando Gomes, do FC Porto, mostrou como se marcavam golos (foram 36). Na Europa, Margaret Thatcher venceu as eleições britânicas, em Junho, e o polaco Lech Walesa ganhou o Prémio Nobel da Paz, quatro meses depois. Era o início do fim do império soviético. Do outro lado do Atlântico, as tropas americanas invadiram a ilha de Granada, Michael Jackson bateu todos os recordes de vendas com o disco 'Thriller' e surgiam os primeiros telemóveis nas ruas de Nova Iorque. 1983 foi também o ano zero do multibanco, em Portugal: nascia a SIBS, empresa que é hoje proprietária da rede de caixas automáticas. H.F.

Dos mais de 13 mil reclusos das prisões portuguesas, 78 cumprem a pena máxima de 25 anos de cadeia. Há só uma mulher e a maior parte foi condenada por homicídio.

Vítor Jorge

Homicídio Em 1987, na praia do Osso da Baleia, matou sete pessoas, incluindo a mulher e uma filha. Apanhou a pena máxima e ganhou uma alcunha: o mata-sete. Foi libertado em 2001, depois de cumprir 14 anos de prisão. Já tentou suicidar-se e vive em França.

Delphine Blechere

Homicídio É a única mulher a cumprir pena máxima em Portugal e foi condenada pela morte a tiro de caçadeira de um casal de turistas holandeses numa barragem em São Bartolomeu de Messines. O crime foi cometido em 2001 e teve como móbil o roubo. O marido de Delphine, Vincent, foi também condenado a 25 anos de prisão.

António Costa

Homicídio O antigo cabo da GNR de Santa Comba matou três raparigas da aldeia onde vivia, Cabecinha de Rei. Os homicídios foram cometidos entre Maio de 2005 e 2006 e tiveram como motivação avanços sexuais frustrados do cabo Costa.

António Jorge "Tó-Jó"

Homicídio Tinha 21 anos quando matou o pai com 34 facadas e a mãe com 12. Era vocalista de uma banda de Metal satânico, mas a tese de um crime ritual foi desmontada pelo próprio em tribunal: matou os pais por causa da casa e do seguro de vida. A namorada e um amigo não confessaram o homicídio e foram absolvidos.

Fernando Tomé Bárbara

Roubo O último assalto de uma longa lista acabou de forma inglória: o "doutor" foi atingido pelo cúmplice com um tiro no rabo. Um soldado da GNR também foi ferido no assalto a uma ourivesaria em Almancil e Tomé Bárbara, que fez parte das FP-27 e do bando de Faustino Cavaco, apanhou 25 anos de prisão. O cúmplice morreu no tiroteio.

Guilherme Eliseu

Furto, burla, falsificação de documentos Numa das vezes em que foi a tribunal conseguiu roubar a pasta de couro da delegada do Ministério Público e fugir. Foi julgado por mais de cem crimes de furto, falsificação e burlas. Nunca usou da violência, mas em 2001 foi condenado a 25 anos de prisão.

Leonardo Moreira

Abuso sexual de menores Se tivesse de cumprir pena por todos os crimes a que foi condenado, o pedófilo da Feira teria de passar 317 anos na prisão. Abusou de 44 menores que aliciava com doces e passeios de bicicleta. Tem 60 anos.

Marcus Fernandes

Homicídio O polícia pediu-lhe a identificação, Marcus mandou o BI para o chão e quando António Abrantes se baixou, encostou-lhe a pistola à testa e disparou. O agente Alves foi baleado mortalmente quando tentou ajudar o colega e um terceiro polícia só escapou porque se atirou para debaixo de um carro. Marcus foi detido dias depois na posse de um verdadeiro arsenal de armas que guardava num barracão em Melides. Está preso desde Março de 2005.

Pedro Clemente

Homicídio Depois de ouvir a sentença que o condenou à pena máxima, Clemente foi vestido de polícia para escapar à multidão que cercava o tribunal de São Miguel, nos Açores. Matou e violou uma menina de seis anos, filha de um colega de trabalho. Cumpre pena em Lisboa.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Agosto de 2009