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Ventos e tempestades

O filme aterroriza, mas evita a histeria.

O documentário pende mais para a palestra universitária do que para a guerrilha especulativa e, nesse sentido, talvez não encontre grande receptividade entre aqueles que vão ao cinema à procura de entretenimento superficial, tantos são os gráficos, números e percentagens que nos aparecem à frente. No entanto, é possível que receba a atenção de quem vai à procura de um filme de horror baseado em factos reais e que nos afectam directamente todos os dias. Realizado por Davis Guggenheim e tendo Lawrence Bender no leme da produção (o mesmo que viabilizou o filme Pulp Fiction), o filme apresenta uma escalada de imagens aterrorizantes mas que evitam a histeria cuidadosamente. A viagem de Al Gore começa na simples constatação do aquecimento global: os oceanos gelados do Árctico e Antárctico desfazendo-se gradualmente, águas nascidas nos montes brancos dos Himalaias que deixarão de fluir, glaciares recuados até à inexistência, neves desaparecidas no cume do monte Quilimanjaro, lagos que se evaporaram e são agora parte do deserto circundante. Numa sequência estonteante que rivaliza com qualquer filme de terror, Al Gore, ao mostrar com uma seriedade implacável a subida vertiginosa das temperaturas em todo o globo, desenha o cenário criado por um clima artificialmente aquecido: oceanos mais quentes dando origem a secas prolongadas, cheias catastróficas na Europa, ondas de calor que dizimam milhares de pessoas em França e Portugal, furacões mortíferos como o que destruiu Nova Orleães e, não tarda nada, a inundação de amplas zonas do Planeta onde vivem multidões, como é o Sul da Florida, os Países Baixos, Xangai, a ilha de Manhattan ou os deltas do Bangladesh.

Por mais bem intencionado que seja, no entanto, nenhum político se pode dar ao luxo de apresentar apenas a imagem negra de um futuro sem esperança. Não é com vaticínios trágicos que se faz carreira em Washington. Mais importante ainda, não é para ficar ainda mais deprimido que o americano paga 10 dólares para ver cinema. Daí que Uma Verdade Inconveniente tivesse de ser, antes de mais nada, uma peça de entretenimento que, quando não está a mostrar o desastre planetário que se aproxima, vai pintalgando o ecrã com graças, apartes cómicos, bonecos desenhados pela equipa de «Os Simpsons» e, podia lá faltar, duas reflexões pessoais que dão a Al Gore, e ao seu documentário, a proximidade humana que tão necessária é. Tentando explicar o trajecto da sua consciência política e ambiental, Gore fala de um acidente quase fatal sofrido pelo filho e de como esse instante absolutamente angustiante lhe apresentou uma nova perspectiva sobre a brevidade da vida, de como é fundamental, a todos os níveis, proteger aquilo que nos sustenta todos os dias. Por vezes só despertamos para aquilo que nos mantém vivos quando essa coisa, ou pessoa, já não existe. O equilíbrio ecológico, refere ele, tem o mesmo poder. A erosão climatérica, diz Gore, não é um fenómeno restrito a uma determinada região. Não vai apenas afectar quem não tem dinheiro. É algo que vai alterar para sempre, e para muito pior, a qualidade de vida de todas as pessoas em todos os países. Num tom severo, avisa que já «estamos quase a passar para lá da fase em que é possível remediar a situação. Dentro em breve entraremos na fase das consequências». Num segundo momento confessional, Al Gore fala da sua irmã falecida com cancro resultante do fumo do tabaco. A família Gore, oriunda do Tennesee, tinha uma plantação de tabaco e foi assim que ela se viciou, e morreu, como que vitimizada pelos que lhe estavam mais chegados. Nada neste filme vai tão direito ao coração: quem semeia ventos colhe tempestades. Aquilo que deitamos ao mundo acaba sempre por bater-nos à porta com a força redobrada de uma fúria que há muito tempo vem ganhando velocidade e vantagem.