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Venezuela e Argentina unidas contra Bush

Mesmo que a visita do presidente norte-americano esteja a ser feita pelas melhores intenções, a contestação não tem parado. Hoje é a vez da Argentina se manifestar. O mestre-de-cerimónias é Hugo Chavez que já está em Buenos Aires para liderar os protestos contra o seu arqui-inimigo.

O principal protesto contra a presença de George Bush na América Latina acontece esta sexta-feira em Buenos Aires. No jogo do poder, de um lado está Bush; do outro, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. No meio dos dois, apenas o Rio da Prata.

Por trás do esforço do presidente George W. Bush em recuperar o terreno perdido pelos Estados Unidos na América Latina ao longo dos últimos seis anos, aparece uma preocupação: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que ganhou protagonismo à medida que o preço do crude disparava, em boa medida, como consequência da própria política norte-americana que deu prioridade à agenda anti-terrorismo no Médio Oriente.

Se Bush imaginava que uma viagem pelo “pátio de trás” diminuiria as críticas que recebe pelo mundo e teria Chávez como mero espectador, enganou-se. Além das hostilidades que vem recebendo desde que chegou à região, o principal protesto contra Bush vai acontecer onde ele preferiu não passar.

A presença do venezuelano Hugo Chávez em Buenos Aires não é mera coincidência. Na noite de sexta-feira, enquanto Bush estiver na segunda escala da sua viagem com o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, o venezuelano vai comandar um acto anti-Bush na Argentina. Entre os dois apenas o Rio da Prata. A manifestação contará com a presença maciça dos piqueteiros (organizações sociais de desempregados cuja modalidade de protesto é o bloqueio de avenidas e estradas), aliados ao presidente argentino Néstor Kirchner.

Calcula-se que cerca de 40 mil pessoas guiar-se-ão sob o lema central: “Fora Bush da América Latina”. Ou como Chávez proferiu ao chegar a Buenos Aires no final da noite de quinta-feira: “Bush, go home”.
“Se eu o tivesse cara a cara, diria ‘go home’, gringo, ‘go home’. Não tens nada o que buscar aqui nesta terra”, sentenciou Chávez, arquitecto de uma polémica e ainda pouco clara filosofia denominada “Socialismo do século XXI”.

O presidente norte-americano escolheu passar pelos países aliados Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México e deixou de lado os hostis Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina, onde a retórica anti-imperialista marca o tom.

Kirchner a pensar nas eleições de Outubro

Venezuela e Argentina uniram-se contra a visita de Bush. Kirchner não vai participar do protesto, mas assina em baixo, dando todo o apoio logístico à militância popular subsidiada pelo governo. Kirchner repete, assim, o mesmo comportamento de Novembro de 2005 durante a Cimeira das Américas na cidade argentina de Mar del Plata. Além de favorecer o acto anti-Bush de Chavez, o presidente argentino foi hostil com o colega norte-americano. Essa hostilidade foi uma das causas para Bush decidir não pisar novamente território argentino.

“Eu vi-o partir com o rabo entre as pernas”, lembrou Chávez.
Com eleições presidenciais marcadas para Outubro, Kirchner sabe que defender Chávez e atacar Bush, mais do que render votos, é a receita que agrada as organizações sociais de esquerda, como as Mães da Praça de Maio, com potencial mobilizador de massas. E as massas populares são cruciais para o sucesso dos comícios.

“Consequências para a Argentina pela atitude de Kirchner? Nenhuma. Estamos diante de um presidente norte-americano com baixa credibilidade, baixa popularidade e em período de retirada. Bush é um presidente em declínio político; Chávez em ascensão de protagonismo”, explicou ao Expresso o analista argentino Joaquim Morales Solá. “A viagem de Bush é uma tentativa por melhorar a sua relação com a América Latina, mas é uma tentativa um tanto tardia”, confirma Eduardo Sigal, subsecretário argentino de Integração Económica Americana.

Depois de ter prometido, assim que assumiu a presidência em Janeiro de 2001, que a América Latina seria a sua prioridade, Bush alterou a agenda em direcção à luta contra o terrorismo a partir do atentado de 11 de Setembro.

Mas ocupar o papel de protagonista de um show anti-Bush a poucos quilómetros do próprio não é de graça. Os petrodólares de Chávez compram cada vez mais produtos argentinos, permitem investimentos milionários e financiamentos que já compraram 4.500 milhões de dólares em títulos da dívida argentina.

Bush x Chavez

Antes de viajar, Bush tinha prometido ajuda para os pobres da América Latina. Anunciou um plano vago de assistência económica que inclui 75 milhões de dólares para toda a região, destinado a melhorar o inglês de jovens para que possam estudar nos Estados Unidos. Este plano conta ainda com o envio de um navio-hospital da Marinha norte-americana e que fará escalas em vários países da região para tratar de 85 mil pacientes e realizar 1.500 cirurgias.

Uma gota de água no oceano de médicos e clínicas que Cuba fornece à Venezuela e à Bolívia.

“Os Estados Unidos estão comprometidos a ajudar as pessoas a saírem da pobreza. A minha mensagem para os trabalhadores e camponeses é ‘vocês têm um amigo nos Estados Unidos’”, disse Bush.

“O presidente dos Estados Unidos é bastante hipócrita. Disse que oferecerá 75 milhões de dólares para os jovens. Só a Argentina e a Venezuela, ao lançarmos o Banco do Sul, conseguimos 1.500 milhões de dólares”, comparou Chávez ao chegar a Buenos Aires. “Bush está descobrindo agora a pobreza depois de tantos anos. A culpa dessa situação é do império norte-americano e do seu modelo económico”, concluiu.

Na primeira escala de Bush na região, será assinado um memorando bilateral com o Brasil sobre biocombustíveis, especificamente o etanol. A aliança com o Brasil, além de diminuir a dependência dos Estados Unidos do petróleo importado de nações hostis como Venezuela e Irão, visa fortalecer a “diplomacia do etanol” em contra-posição à “diplomacia dos petrodólares” de Chávez.

Mas o venezuelano não vai ficar atrás. Assinará nesta sexta-feira com a Argentina e no sábado com a Bolívia, para onde viaja, um acordo energético para a formação de uma organização de países produtores e exportadores de gás, uma espécie de Opep do gás.“Vamos concretizar essa união. O gás é a energia da que os povos da América precisam”, anunciou Chávez.