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Venezuela compra navio rejeitado pelos Açores

Acordos assinados entre Lisboa e Caracas ficam aquém das promessas de 2008. Chávez pede aos portugueses que invistam na Venezuela.

Filipe Santos Costa, na Venezuela (www.expresso.pt)

A venda à Venezuela do navio Atlântida, recentemente rejeitado pelo Governo Regional dos Açores por não cumprir os critérios que levaram à sua encomenda, é uma das poucas novidades dos acordos assinados no sábado no final da visita relâmpago de José Sócrates a Caracas.

O navio, que serviria para o transporte inter-ilhas nos Açores, foi encomendado pelo Governo Regional aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, mas diversos problemas levaram o executivo de Carlos César a anular o negócio em Abril passado. Depois de várias polémicas, o Governo Regional alegou que o navio não cumpria a velocidade exigida. Agora, o Atlântida deverá assegurar as ligações entre o Porto de La Guaira e a Ilha Marguerita. A venda, por 35 milhões de euros, ainda não está fechada (o compromisso assinado fala em "possibilidade de aquisição do ferry"), mas Hugo Chávez já elogiou o negócio, referindo, na sua intervenção, "a aquisição de um ferry que nos vai ser de muita utilidade".

Outro dos acordos assinados - e este, de negócio fechado - prevê a construção, também em Viana do Castelo, de dois navios asfalteiros, por 129 milhões de euros.

Os 19 acordos rubricados perante Chávez e José Sócrates representam negócios no valor de cerca de 1700 milhões de euros para as empresas portuguesas. Um valor abaixo dos quase três mil milhões comprometidos na cimeira luso-venezuelana de 2008, quando Sócrates inaugurou uma nova aposta de Portugal na Venezuela.

Mas agora, como então, estão em causa documentos que, salvo raras excepções, não são ainda acordos finais, mas apenas promessas de negócio. Garantidas estão apenas, para além dos navios, a venda de computadores Magalhães, da JP Sá Couto, e de casas pré-fabricadas, do grupo Lena. Em ambos os casos, os acordos agora assinados representam uma revisão em baixa em relação ao que ficou comprometido há dois anos.

Em vez de um milhão de Magalhães, a JP Sá Couto vai exportar um total de 875 mil (350 mil já seguiram, outros 525 mil ficaram agora contratualizados e devem sair de Portugal até Setembro - a tempo das eleições legislativas na Venezuela). Após esta encomenda, Caracas quer que os computadores sejam produzidos na Venezuela, pelo que há a possibilidade de uma parceria com a JP Sá Couto para a instalação de uma fábrica.

No caso do grupo Lena, em vez das 50 mil casas pré-fabricadas prometidas em 2008, a Venezuela vai comprar apenas 12 500. Depois disso, a ideia é instalar, em parceria com o grupo Lena, três fábricas destas casas de habitação social.

Foi ainda acordada a exportação para a Venezuela de óleo de soja, leite em pó, pernil de porco, conservas, massas, farinha e atum, num total de 125 milhões de dólares.

"Venham!", diz Chávez

 

Para o futuro fica a promessa de negócios para várias empresas portuguesas, como Efacec, EIP, EDP, Janz e Atral Cipan. Dois dossiês que estão em suspenso ficaram fora das conclusões desta cimeira: a recuperação do Porto de La Guaria, a cargo da Teixeira Duarte, e o projecto do novo hospital de Caracas pela Edifer.

No seu discurso, Chávez desafiou os empresários portugueses que ainda não investiram na Venezuela a que o façam. "Digam-lhes que venham!", pediu o presidente venezuelano. "Garantimos, para além de amizade e afecto, o respeito pelos seus interesses", assegurou Chávez, que nos últimos anos tem procedido a inúmeras nacionalizações, mesmo de investimentos de empresas estrangeiras.

Sócrates, por seu lado, assegurou a Chávez que tem em Lisboa "um Governo amigo do Governo da Venezuela e do povo da Venezuela".