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"Vejo os meus direitos serem violados todos os dias"

José Lima na chegada a Almeirim, depois de ter percorrido 59 km no dia de hoje

José Lima continua a sua viagem de Norte a Sul do país em cadeira de rodas. Hoje chegou a Santarém, de onde sairá amanhã em direcção a Coruche.

Pedro Chaveca

A passagem de José Lima pela vila Ribatejana de Almeirim provocou nos habitantes um sentimento de surpresa nuns casos e aplausos tímidos noutros, até porque a rapidez com que passou pela estrada que atravessa a povoação não deu para mais.

José Lima - o paraplégico que está a percorrer o país em cadeira de rodas - foi recebido como um herói no hotel escalabitano, onde funcionários e militares da GNR lhe pediram autógrafos. Agora vai recuperar forças para a nova etapa de amanhã, que unirá Santarém a Coruche.

A comitiva que trouxe consigo hoje era essencialmente formada por uma delegação da Associação dos Deficientes das Forças Armadas e o habitual carro da GNR. Como o próprio Lima sublinha que "não há comitivas organizadas" as pessoas que se juntam ao ciclista paraplégico fazem-no por solidariedade.

Deficientes de Portugal, uni-vos

Aos 52 anos, o homem que se fez à estrada em Viana do Castelo há 10 dias em direcção a Faro não tem dúvidas sobre a motivação do seu protesto: "Prefiro partir do que dobrar". É que a ideia desta volta a Portugal em cadeira de rodas já tinha sido prevista o ano passado, mas foi deixada para 2007 por ser o Ano Europeu para a Igualdade de Oportunidades para Todos (AEIOT). E porque razão mais foi o protesto adiado para agora? Porque Lima considera que o AEIOT contrasta precisamente com a falta de oportunidade para quem tem deficiências.

"Os meus direitos são violados todos os dias ainda que cumpra com os meus deveres". O licenciado em engenharia electrónica exemplifica com a falta de acessibilidades nos transportes públicos e a falta de oportunidades de emprego. Mais, Lima - que é contra qualquer tipo de quotas que obriguem as empresas a contratarem deficientes - vê as portas serem-lhe fechadas assim que se apresenta como deficiente motor, apesar de seu vasto currículo o levar sempre a entrevistas de emprego. O pior é quando o vêem, desde há três anos que não tem trabalho e vive apenas dos lucros da sua pequena editora de livros que lhe "dá para sobreviver".

Esta aventura que agora está na estrada levou dois meses a ser preparada e terminará a 21 de Agosto. É urgente haver "uma voz que fale pelos deficientes na Assembleia da República". O minhoto de sotaque cerrado dispara os números que lhe dão cobertura à teoria da representação parlamentar: "Somos quase um milhão, um dia que consigamos uma união total, teremos um partido político".

Tirando um ou outro percalço no início da viagem, o impetuoso ciclista não tem "razão de queixa de ninguém" e tem tudo organizado até chegar a Faro, a derradeira etapa.

Na Europa os dois países que escolheria como os melhores na assistência ao cidadão deficiente são a França e a Suiça, contudo lembra que Portugal "tem uma legislação óptima, falta é cumpri-la". Questionado sobre a primeira coisa que mudava para melhorar a vida dos deficientes, Lima dispara: "Criava um mecanismo que nos permitisse aceder ao mercado de trabalho de forma igualitária".

Lisboa não...

Lisboa não faz parte do itinerário. Mas até isso Lima considera uma forma de protesto. "Não quis usar esta viagem para ir para a porta da Assembleia da República fazer barulho". O engenheiro, pai de um rapaz de 20 anos, não tem ilusões quanto ao que conseguirá (ou não) mudar. "Quando chegar a Faro pouco ou nada terá mudado". Para já, chega-lhe apenas tentar mudar as mentalidades, já que a realidade - sabe bem -, será muito mais difícil.

...Roménia sim, mas de carro

No final de Setembro vai conduzir quase quatro mil quilómetros até à Roménia. Desta vez para ir passar duas semanas à cidade natal da segunda mulher. No entanto, aproveita a ocasião para, tal como agora, fazer tudo pelos próprios meios. A cadeira de rodas será trocada pelo volante de um pequeno utilitário, mas a mensagem de José e de quem o apoia mantém-se a mesma: "Sem barreiras arquitectónicas e com igualdade de oportunidades somos iguais a qualquer outro".