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Vaticano beatifica 498 espanhóis

Quase meio milhar de clérigos espanhóis assassinados durante a guerra civil e nos anos que a antecederam foram proclamados beatos e considerados "mártires do século XX."

Pedro Chaveca

Do grupo de 498 homens e mulheres assassinados entre 1934 e 1939, que esta manhã foram proclamados beatos pelo Cardeal português, José Saraiva Martins, apenas sete são laicos, o que fez desta cerimónia a maior beatificação em massa na história da igreja católica.

Na Praça de São Pedro na cidade-Estado do Vaticano estiveram cerca de 40 mil pessoas, especialmente espanhóis, que ouviram as palavras em castelhano do Cardeal luso. José Saraiva Martins, em nome do Papa Bento XVI, que não esteve presente na cerimónia, leu o nome de todos os beatos, referindo-se a eles como "mártires do século XX". Um termo que já o falecido João Paulo II tinha utilizado.

Se a fé e as palavras elogiosas fizerem parte deste momento histórico a polémica marcou igualmente presença, com muitas vozes criticas a levantarem-se contra o facto do Vaticano só estar a prestar homenagem a uma das partes da guerra civil espanhola, um conflito que fez 250 mil mortos, entre eles 10 mil clérigos e antecedeu uma ditadura que arrastou o país durante 36 anos.

A Igreja continua a ser acusada de só reconhecer quem esteve ao lado das tropas franquistas e esquecer constantemente os republicanos que contavam com o apoio da União Soviética e do comunismo internacional. A resposta da igreja católica sublinhou que esta é uma altura de "reconciliação e não de ressentimento".

Uma polémica que parece ter ficado resolvida ainda dentro de portas, pois o governo socialista liderado por José Luís Zapatero enviou o ministro dos negócios estrangeiros, Miguel Angel Morantinos, para estar presente nas cerimónias.

Três anos de guerra que ecoarão para sempre

Entre 1936 e 1939 republicanos afectos à esquerda e falangistas de ideologia fascista combateram numa das mais sanguinárias guerras civis que atormentaram a Europa. Durante esse conflito que contou com o apoio da Alemanha nazi e da União Soviética comunista, a igreja não primou pela neutralidade e desde o início da contenda que se portou como um apoio de peso para os exércitos franquistas.

Assim sendo a igreja tornou-se num alvo a abater pelos republicanos, que ainda antes da guerra viam nos elementos do clero uma força de bloqueio às acções socialistas que queriam impor em Espanha.

Um dos primeiros alvos dessa fúria, e hoje beatificado, foi o Bispo Cruz Laplana y Laguna, feito prisioneiro pelas forças de esquerda apenas dois dias depois da guerra ter eclodido e fuzilado nas semanas seguintes.

As últimas palavras terão sido dirigidas aos seus carrascos e que hoje já pertencem ao ideário católico: "Que Deus os perdoe assim como eu vos perdoo-o e abençoo-o". Agora, Laplana y Laguna é um beato a caminho da canonização.

A Guerra Civil espanhola, longe de ser uma ferida sarada, continua a ser uma chaga aberta no coração de muitos espanhóis. Numa tentativa de apaziguar velhos fantasmas e de encontrar uma reconciliação que teima em não chegar, o parlamento de Madrid está prestes a aprovar uma lei que obrigará todas as igrejas católicas a removerem qualquer monumento referente ao franquismo.

Uma medida que agrada a muitos espanhóis, mas que é vista com desagrado pela igreja católica, e que em vez de pacificar o país, está a trazer de volta velhos ódios.