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"Va por la marcha"

O primeiro dia de José Sócrates na Venezuela foi marcado por alterações de última hora à agenda prevista. Nada que os assessores do primeiro-ministro não tivessem antecipado.

Cristina Figueiredo, enviada a Caracas

Amanheceu solarenga a manhã em Caracas, contrariando as previsões metereológicas que ameaçavam trovoada. E Hugo Chavez tomou o bom tempo como metáfora do estado das relações entre Portugal e a Venezuela - ontem, 13 de Maio, dia da Virgem de Fátima (de que se confessou devoto), reforçadas com a assinatura de 14 acordos económicos e políticos.

Uma cerimónia que duraria cerca de hora e meia, graças sobretudo ao estilo único do presidente da República Bolivariana da Venezuela. Chavez 'trocou as voltas' ao programa estabelecido (e 'obrigou' empresários portugueses a deslocarem-se inesperadamente ao palácio de Miraflores, sua residência oficial) ao sugerir que os acordos económicos que só deveriam ter sido celebrados ontem à tarde e hoje de manhã se realizassem ali mesmo, antes ainda da hora do almoço.

O imprevisto estava de certa forma previsto: isto "va por la marcha" (ao sabor das circunstâncias, em tradução livre), avisara já um dos assessores do primeiro-ministro, pedindo compreensão aos jornalistas para as possíveis alterações à agenda protocolar noutras circunstâncias quase sempre rígida e imutável. A alteração seria depois 'aproveitada' pelo gabinete de José Sócrates como significando a demonstração do empenho do Estado venezuelano nesta nova fase de relacionamento com Portugal. Mas 'protocolo' não é, com efeito, palavra que agrade a Hugo Chavez.

"Aqui não há muito protocolo, José"

Num discurso que, não o sendo formalmente, acabaria por durar mais de uma hora (ao longo da qual iam sendo assinados os compromissos empresariais e de Estado entre Portugal e a Venezuela), o próprio desafiou Sócrates (a quem tratava por tu) a 'quebrar' a solenidade da ocasião, explicando: "Aqui não há muito protocolo, José. Estou a copiar o protocolo sandinista de Daniel Ortega", disse, arrancando uma gargalhada geral ao auditório e um sorriso franco ao chefe do Executivo português que lhe respondeu apenas "e fazes muito bem".

Numa altura em que o presidente venezuelano volta a estar envolto em polémica - por um lado, o 'El Pais' noticiava anteontem provas documentais das ligações do regime chavista às FARC colombianas; por outro, nas vésperas da cimeira UE/América Latina, Chavez acusa a chanceler Ângela Merkel de ser representante do regime político que sustentou Hitler, no que mereceu reparos severos do presidente da Comissão Europeia -, o próprio reconheceu que não é um exemplo a seguir em matéria de diplomacia: "Às vezes venho eu e deito a perder o trabalho de Nicolas (Maduro, o MNE venezuelano) num segundo.

Mas a auto-crítica ficou por aqui. A encerrar a cerimónia, Chavez não resistiu a aproveitar a ocasião para enviar uma mensagem clara à Europa ali representada pelo chefe do Executivo português. Citando Simon Bolívar - que há 200 anos lamentou que não tivesse sido a própria Europa a promover o processo de independência da América - e Lula da Silva - que recentemente pediu à Europa que "não tenha medo da esquerda latino-americana" -, o presidente venezuelano exortou a Europa a "apoiar sem reservas o que Saramago chama a mudança histórica destes povos". Sócrates, que acabara de lhe oferecer uma cópia do 'Memorial do Convento', sorriu apenas.

No dia em que se soube em Portugal que os preços dos combustíveis iriam aumentar mais 3 cêntimos, os portugueses que acompanham José Sócrates na viagem à Venezuela tomaram consciência de que, aqui, o litro da gasolina custa exactamente isso: 3 cêntimos. Ou seja, com o que custa um litro em Portugal os residentes na Venezuela atestam o depósito.

A gasolina é mais barata do que a água engarrafada. Uma garrafa pequena custa 60 cêntimos. E uma das consequências é o trânsito (caótico) da capital, a tornar inúteis as estimativas de duração de um percurso automóvel, por mais curto que seja.

As reservas de petróleo da Venezuela estão concentradas numa faixa de 54 mil quilómetros quadrados ao longo do rio Orinoco (que José Sócrates visita hoje), explorada por empresas de diversas nacionalidades (entre as quais a Galp). Estima-se que haja quantidade suficiente para abastecer o país (e o mundo) durante os próximos dois séculos. Uma indiscutível arma económica que o regime político de Chavez não está disposto a malbaratar.