Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

UNIFIL renascerá das cinzas?

Que papel vai desempenhar a força multinacional que está a caminho do Líbano? Para já, uma coisa é certa: sem ela, Israel não teria aceite o cessar-fogo.

No início da terceira semana da guerra do Líbano, passei por um buraco na vedação que marca a fronteira e fui até ao posto avançado da UNIFIL (Força Interina das Nações Unidas no Líbano) que fica ali perto. Dentro do complexo, um pequeno grupo de soldados do Gana jogava futebol. Não saíam do seu posto há mais de duas semanas, às ordens de comandantes que se mantinham à distância, e a maior parte das informações chegam-lhes através dos noticiários da televisão. A missão destes soldados em tempos de calmaria era patrulhar as aldeias vizinhas de Maroun a-Rass e Bint Jbeil, ambas importantes centros de operações do Hezbollah, onde tinha acabado de ocorrer grandes confrontos. Perguntei-lhes quantas vezes, antes da guerra, tinham assistido a operações dos guerrilheiros do Hezbollah naquela zona, ao que o comandante do posto respondeu: «Nunca os vimos. Se lá estão, confundem-se com o resto da população.» De facto, não conseguiu explicar-me qual era exactamente o objectivo desta unidade e de toda a força da UNIFIL.

Parece que a grande dúvida em relação à situação do Líbano, após o cessar-fogo que levou ao fim da guerra entre Israel e o Hezbollah há duas semanas, é o papel que a força multinacional irá desempenhar.

O compromisso das Nações Unidas e de vários governos na formação deste poderoso contingente composto por 15 mil homens foi um instrumento para convencer Israel a concordar com o cessar-fogo, mas naquele país ainda há muita gente relutante em confiar a segurança da sua fronteira do norte a mãos alheias. E, embora as tropas já estejam a chegar ao terreno, ainda não se sabe ao certo qual será o papel desta força. Será que vai apenas controlar se ambas as partes respeitam o cessar-fogo ou tentará impedir que o Hezbollah avance de novo até à fronteira de Israel? Respeitará a Resolução 1599 das Nações Unidas que determina que a única força armada no país seja o Exército libanês e, consequentemente, o desarmamento do Hezbollah? Irá certificar-se de que a organização não recebe mais armas? Uma vez que o Hezbollah garantiu que não abdicará das suas capacidades militares, a força multinacional também tem de estar preparada para enfrentar os guerrilheiros do Hezbollah, para cumprir os seus objectivos.

Os israelitas ainda não confiam na força da UNIFIL, formada em 1978 no seguimento da Operação Litani, quando Israel invadiu o Sul do Líbano para combater as organizações palestinianas que bombardeavam o Norte de Israel. Esta força revelou-se incapaz de evitar o conflito na fronteira, as organizações palestinianas e shiitas continuaram a bombardear cidades israelitas, Israel retaliou com ataques e incursões e a UNIFIL manteve-se nas suas posições a preencher relatórios. Mas o principal motivo da desconfiança dos israelitas está relacionado com queixas em relação às tropas da UNIFIL, que terão ignorado as operações dos guerrilheiros do Hezbollah perto das suas posições e até colaborado com eles em operações contra Israel.

A acusação mais grave refere que os membros da UNIFIL terão ajudado o Hezbollah numa operação, em Outubro de 2000, durante a qual morreram três soldados israelitas, cujos corpos terão sido levados. A acusação foi de tal forma séria, que levou as Nações Unidas a levar a cabo uma investigação interna, que absolveu a UNIFIL mas não acabou com a desconfiança de Israel.

No mês passado, durante um dos ataques da Força Aérea israelita no Líbano, um posto da UNIFIL foi atingido, matando quatro observadores das Nações Unidas. O Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, acusou Israel de ter atacado o posto intencionalmente mas, alguns dias mais tarde, as Nações Unidas foram humilhadas com o aparecimento de um e-mail, que terá sido enviado por um dos observadores mortos no ataque, onde este lamentava o facto de permitirem que os guerrilheiros do Hezbollah operassem perto do posto.

No início, Israel tinha esperança de que a nova força multinacional viesse no lugar da desacreditada UNIFIL mas, neste momento, parece que os soldados provenientes de diferentes países irão continuar a operar no âmbito da UNIFIL. Um oficial superior israelita afirmou: «Eles é que têm de nos dar provas. Não confiamos na UNIFIL. Têm de conseguir que o Hezbollah se retire ou desarmá-lo. Só assim confiaremos neles.» Em resposta, um comandante da UNIFIL diz: «Com o reforço de efectivos e um novo mandato do Conselho de Segurança seremos muito mais eficazes.»

Actualmente, a UNIFIL conta com menos de dois mil efectivos. O plano inicial previa que a nova força tivesse 15 mil homens, mas provavelmente terá apenas metade. Ainda estão por resolver alguns problemas para que os vários países concordem enviar os seus soldados. Inicialmente, pensou-se que a participação francesa seria a maior, mas afinal só decidiram enviar 200 soldados. Esta semana, Jacques Chirac mudou de ideias e afirmou que a França vai efectivamente enviar dois mil soldados e liderar a força.

Tradução de  Ana Teresa