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Uma lança portuguesa no Congo

São 30 os fuzileiros portugueses que partiram hoje de Lisboa para Port-Gentil, no Gabão. Objectivo: Integrar a força europeia que vai ajudar a garantir a segurança do processo eleitoral na República Democrática do Congo.

Os 30 militares portugueses que partiram hoje de Lisboa para Port-Gentil, no Gabão, integram o «task group» de Operações Especiais da EUFOR-RDC, a força europeia que vai ajudar a Missão da ONU (ONUC) na República Democrática do Congo a garantir a segurança do processo eleitoral.

O grupo, que  depende directamente do quartel-general da Eufor, em Potsdam, será comandado por um oficial francês e, além dos portugueses, inclui 130 militares franceses e 50 suecos.

Para os homens das Operações Especiais, o segredo é uma das condições do sucesso e é por esta razão que as suas identidades e rostos devem permanecer ocultos, mesmo para os outros militares da EUFOR, sejam eles membros da força operacional avançada, estacionada em Kinshasa e arredores, ou da «força de reacção rápida» de 800 homens acantonada no Gabão.

Da sua base em Port Gentil, os operacionais do «task group» só sairão por ar ou por mar para realizar as missões que lhes forem atribuídas «de dia ou de noite, em qualquer ponto do território» deste pais africano, 25 vezes maior que Portugal, e totalmente desconhecido para a maioria deles.

«Somos uns bombeiros especiais»

Nada de novo para os homens do Destacamento de Acções Especiais (DAE) da Armada, uma unidade criada há 20 anos no seio do corpo de fuzileiros. Voluntários sujeitos a uma selecção rigorosa (que não leva menos de seis meses) e depois de 18 a 24 meses de formação, estão permanentemente preparados e disponíveis para intervir em situações difíceis, mais frequentes do que se pode imaginar porque muitas vezes desconhecidas do público. «Somos uns bombeiros especiais» ironizam. «Muitos especiais» tendo em conta o equipamento sofisticado, armamento e sistemas informáticos, que levam às costas em acções de combate directo, para resgatar reféns, capturar criminosos ou destruir alvos militares.
Estas «acções directas» serão uma das tarefas incumbidas ao Task Group, decididas caso a caso pelo QG e em articulação com a MONUC. A outra, o «reconhecimento estratégico» é ainda mais «discreta» porque se trata de «colar ao terreno», passar desapercebido, colher informações e transmitir imagens, «em tempo quase real», necessárias ao planeamento e desenrolar das intervenções.

«A regra é 100 por cento de sucesso. Não pode haver erros e isto não se compadece com precipitações ou improvisações. São precisos quatro dias para preparar o resgate de um VIP mas é necessário alguém estar no local desde o início» explicou ao EXPRESSO o comandante do destacamento português.

Por isso, os 30 portugueses sabem o que os espera: «trabalho, trabalho, trabalho» e pouco tempo para conhecer o país e os seus habitantes.
 
Com uma idade média de 30 anos, a maioria já tem às costas uma longa experiência, no DAE e em operações. Mas é a primeira vez que vão entrar em acção de combate, em África e integrados numa força militar europeia, experiência que consideram «profissionalmente estimulante», até porque o Programa de Apoio as Missões de Paz em África, recentemente lançado pelo Governo português, faz prever outras intervenções futuras.
«Continuamos a ter uma ligação especial com o continente africano. Já o senti em 1998, quando efectuamos a operação na Guiné-bissau. Talvez por nos sentirmos úteis, não só para tirar de lá cidadãos portugueses e europeus, mas porque contactámos com as necessidades da população, das crianças sobretudo. Por mais profissionais e técnicas que sejam as missões, não podemos ficar indiferentes», disse o comandante, quinta-feira de manhã, na base do Alfeite, a «casa mãe dos fuzileiros».

E a presença de alguns brancos na «paisagem», a falar português, nalgum lugar perdido do Katanga ou do Zaire não parecerá de todo estranha aos olhos dos congoleses: a comunidade lusa, que existiu em tempos sob o domínio colonial belga ou durante a era Mobutu não cortou por completo os contactos com a RDC, apesar das guerras e convulsões. Muitos conservam interesses no país, alguns regressaram, outros deixaram descendentes. Há ainda a extensa fronteira terrestre entre a RDC e Angola, frequentemente atravessada nos dois sentidos, e não só por militares.

O mandato da EUFOR- RDC é de quatro meses, «flexível para menos ou para mais». Todos esperam que será «para menos», porque «significará que as eleições correram bem». Até o dia do regresso, só haverá a Internet e a rede gabonesa de telemóveis para «matar saudades das famílias» e para o público, as informações que serão dadas pelo «Centro de situações operacionais» criado em Junho junto do Estado Maior da Armada para acompanhar a missão.