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Uma arquitectura com aroma a Sul

Carrilho da Graça é o Prémio Pessoa 2008. Arquitecto, professor, alentejano.

O traço de um arquitecto é deixado na pedra, a sua assinatura é de betão e a sua marca prolongada no tempo. Produz uma obra que, muitas vezes, ultrapassa o autor, antecede-lhe os passos e o apresenta melhor do que o bilhete de identidade. João Luís Carrilho da Graça não é uma figura pública. Foram os 30 anos de obra, de edifícios construídos e projectos desenhados que lhe valeram, este ano, o Prémio Pessoa, uma iniciativa do Expresso, com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos.

O arquitecto "de grande rigor e coerência" que criou "uma linguagem própria que adequa a cada situação específica" - como sublinhou o júri do Prémio Pessoa 2008 - vive dos edifícios de grande porte que criou e que convém apresentar a traço largo: o pavilhão do conhecimento dos mares, na Expo. A Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. O Mosteiro da Flor da Rosa, no Crato. Ou o Museu do Oriente, que ajudou a recuperar e foi inaugurado este ano. Ou ainda o Complexo de Auditórios de Música, em Poitiers, que lhe deu, também este ano, um reconhecimento internacional.

Feitas as apresentações do arquitecto, através das suas obras, pode Carrilho da Graça passar à primeira pessoa. Agradece, "com muita alegria", a distinção que lhe serve de "estímulo para continuar a trabalhar". Depois, alarga o leque de abrangidos pelo Prémio Pessoa, porque "a arquitectura é sempre uma tarefa colectiva, de equipa", minuciosa, demorada, invisível. O que hoje se distinguiu, "tem anos de trabalho anterior", travado e batalhado no ateliê, onde acumula 30 anos de actividade. O reconhecimento público trazido com o Prémio Pessoa é prova "da interacção" da sua arquitectura com a sociedade em que vive. "Não há arquitectura sem essa componente social, sem esta interacção", diz.

Um homem do Sul

Júri do Prémio Pessoa junto ao Hotel do Guincho, onde reuniu: José Luís Porfírio, Eduardo Souto Moura, Maria de Sousa, António Barreto, João Lobo Antunes, Diogo Lucena, Rui Baião, Mário Soares, Francisco Pinto Balsemão, Clara Ferreira Alves e Fraústo da Silva

Júri do Prémio Pessoa junto ao Hotel do Guincho, onde reuniu: José Luís Porfírio, Eduardo Souto Moura, Maria de Sousa, António Barreto, João Lobo Antunes, Diogo Lucena, Rui Baião, Mário Soares, Francisco Pinto Balsemão, Clara Ferreira Alves e Fraústo da Silva

Luiz Carvalho

O Prémio Pessoa, no valor de 60 mil euros, encheu o dia do arquitecto de uma catadupa de telefonemas e contactos com jornalistas a que não está habituado. Ficou surpreendido. Como ficara, na véspera, quando recebeu uma chamada de Francisco Pinto Balsemão (o presidente do júri) a anunciar o veredicto. "Eu?", respondeu incrédulo.

No dia seguinte, ao Expresso, confessava não saber ainda o que fazer com o montante do prémio. "Na verdade, nem sei quanto é"...

À noite, na sede da Ordem dos Arquitectos, cumpriu o prometido e apresentou uma conferência. 'La Revoluzione siamo noi', dizia o título. O motivo era a vida e obra de Joseph Beuys, o artista alemão, revolucionário do século XX. O pretexto, uma exposição retrospectiva, patente em Berlim, que Carrilho da Graça visitou e agora partilhou com os seus pares.

Eduardo Souto Moura é um deles. Arquitecto, premiado em 1998 com o Pessoa, integra agora o júri, o que o torna uma fonte abalizada para falar de Carrilho da Graça. Nega, em primeiro lugar, a pertença do arquitecto a qualquer linha, escola ou tendência. "Tem obra dele e uma linguagem própria. É perfeitamente possível identificar uma obra do Carrilho da Graça, a sua marca", disse ao Expresso. A linguagem do arquitecto "não é fixa, nem fundamentalista. Foi evoluindo no tempo", como é variável o leque e o impacto da sua obra. "Concilia o projecto ou a recuperação de antigos edifícios com a actividade docente", diz Souto Moura, sublinhando a importância desta transmissão de conhecimentos que permite que "várias gerações ganhem com esta aprendizagem".

Carrilho da Graça concluiu este ano "um conjunto de obras notáveis", mas está longe de se ter tornado "um artista encerrado na sua torre de marfim". "Transmite conhecimento aos outros e a arquitectura precisa desta continuidade", conclui Eduardo Souto Moura.

João Belo Rodeia, presidente da Ordem dos Arquitectos , confessa o "orgulho" sentido por esta distinção a um dos "maiores autores e principais referências da arquitectura portuguesa".

Carrilho da Graça, 56 anos, nascido em Portalegre e licenciado em Lisboa, produz uma arquitectura de "insólito apuro, de subtileza e sofisticação na forma". Mas não esconde as raízes. Reflecte um ambiente do Sul, com os vazios, os pátios e o protagonismo dos percursos, das paisagens". Às vezes, mesmo perante os cenários mais difíceis. Exemplo? "A muito bem-vinda colonização da 2ª circular, em Lisboa", explica João Rodeia. Entre nós rodoviários, Carrilho da Graça ergueu a Escola Superior de Comunicação Social, a Escola Superior de Música e uma extensão da Escola Alemã. O efeito está à vista de todos.

Pela primeira vez nos 22 anos de história do Prémio Pessoa, o Presidente da República fez questão de expressar publicamente os seus parabéns ao premiado. Cavaco Silva, que presidirá à cerimónia de entrega do prémio (ainda sem data marcada) a Carrilho da Graça, felicitou "vivamente" o arquitecto. "Autor de uma obra reconhecida, quer no nosso país quer internacionalmente, Carrilho da Graça é um dos nomes que mais têm contribuído para o prestígio crescente da arquitectura portuguesa contemporânea. Quero, por isso, apresentar-lhe, em meu nome pessoal e dos portugueses, sinceros parabéns por esta distinção", diz a nota assinada pelo Presidente Cavaco Silva. Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Dezembro de 2008