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Um pretexto arrevesado

Depois de sete meses, Portugal reconheceu a independência do Kosovo.

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

De entre os vários argumentos com que o ministro Luís Amado justificou aos deputados a decisão do Governo português de reconhecer, na terça-feira, a independência do Kosovo, sete meses depois da sua declaração unilateral, há um que merece destaque: "a mudança do contexto geopolítico" que entretanto se verificou.

O ministro referia-se à situação no Cáucaso e à acção russa que levou ao reconhecimento, por esta, das repúblicas separatistas da Abkhazia e da Ossétia do Sul. Disse o ministro que, ao fazê-lo, a Rússia "implicitamente reconheceu a independência do Kosovo".

Poderá entender-se que sim. A Rússia perdeu pelo menos a legitimidade de contra ela protestar no Conselho de Segurança. Dir-se-ia que "esgotou" o precedente tantas vezes invocado para desaconselhar, precisamente, o reconhecimento internacional do Kosovo.

Confesso que acho o argumento português um pouco arrevesado, embora entenda a sua "bondade". É uma teoria que, se calhar, vai fazer caminho internacionalmente. Mas que sirva como razão para reconhecer o Kosovo por parte de Portugal é que não.

Estava o Governo português à espera de uma situação deste tipo, que pudesse justificar o reconhecimento? É estranho. O que se sabe bem é que o adiamento da situação estava a causar incómodo internamente e na Europa.

Bem certo que o ministro aduziu outros motivos - a irreversibilidade da situação (será? - retorquiu-lhe Fernando Rosas, do Bloco de Esquerda); o quase isolamento português, visto ser o único dos sete países da UE que ainda não reconheceram o Kosovo que não tem problemas de minorias e a "responsabilidade da União Europeia" pela estabilidade da região. E, claro, as fortes pressões sofridas, deduz-se.

Todas estas razões derivam do pragmatismo e da mais pura "real politik". Confesso que gostava mais da outra faceta da diplomacia portuguesa: aquela em que durante sete meses pode proclamar a sua independência de espírito, mostrando, pelo seu não reconhecimento, que não tinha concordado com o processo.

Mas nisso, diga-se em abono da verdade, o ministro nunca enganou ninguém. A inevitabilidade do reconhecimento nunca esteve em causa, desde o princípio e, como ele próprio sublinhou, o que disse sempre foi que "a seu tempo, Portugal saberá avaliar a situação".

Foi agora. Acabaram-se as ilusões.