Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

"Um instrumento de desenvolvimento"

José Vicente Lopes, correspondente na Cidade da Praia

Cabo Verde, cujo Parlamento ratificou sem qualquer rebuço o Acordo Ortográfico, é a favor de uma "aproximação" entre as variantes existentes em Portugal e no Brasil. Esta é a posição do primeiro-ministro José Maria Neves, para quem "a língua portuguesa é um instrumento importante para o desenvolvimento de Cabo Verde".

Arquipélago de cerca de 500 mil habitantes, em Cabo Verde as pessoas se comunicam em crioulo no dia a dia, ficando o português para as relações oficiais ou protocolares. Aqui o português é língua oficial desde 1975, ano da independência nacional, e o crioulo procura até hoje a sua oficialização, estando os seus paladinos às voltas com a unificação de um alfabeto conhecido pela sua sigla, ALUPEC.

Qualquer que venha a ser a saída encontrada para essa situação de bilinguismo ou diglossia, José Maria Neves assegura que a língua portuguesa é vista pelo seu governo como "um património fundamental para Cabo Verde", em suma, "um instrumento importante" para o seu desenvolvimento, nomeadamente para a sua "a sua inserção internacional". Por isso, defende, "valeria a pena que os falantes de português se pusessem de acordo em questões essenciais no domínio da língua, nomeadamente ortográfico, para que isso possa contribuir para a afirmação de todos nós no mundo".

E quando se fala no português como língua de trabalho nas Nações Unidas, Neves recorda que os PALOP já conseguiram isso junto da União Africana e, no caso de Cabo Verde e da Guiné, junto da Comunidade Económica dos Estados de Oeste (CEDEAO), e que a hipótese disso vir a acontecer também a nível da ONU será mais forte caso o Brasil vir a tornar-se membro efectivo do Conselho de Segurança.

O peso regional, politico, económico e populacional do Brasil são, para Neves, factores que ninguém poderá ignorar, a começar pelos demais utentes da língua portuguesa. Mas só isso não basta, reconhece: "É fundamental que haja um diálogo fecundo para que se encontre uma matriz comum que sustente a afirmação da língua portuguesa no mundo", sugerindo uma "aproximação ortográfica" entre as variantes brasileira e portuguesa.

Quem também defende tal a aproximação é Germano Almeida, o escritor mais mediático de Cabo Verde, cuja obra escrita em português encontra-se publicada em Portugal. Embora para o seu país defenda uma "paridade" entre o português e o crioulo, Almeida não tem dúvida de que a língua portuguesa é fundamental para o desenvolvimento de Cabo Verde e que tem sido através dela que se tornou conhecido como escritor. "Para todos os efeitos são cerca de 200 milhões de falantes e, por essa via, o português mete-nos em contacto com outras pessoas, ao passo que o crioulo não".

Para o autor de "Dona Pura e os camaradas de Abril", em torno do acordo ortográfico há uma briga de lobbies para o qual não está abalizado a se pronunciar e nem se quer meter. Uma coisa tem a certeza: "Na ausência de um acordo ortográfico, no fim, corremos o risco de ter oito línguas".