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Um dia o bairro vem abaixo

A providência cautelar foi indeferida. Esperam-se agora as máquinas no bairro cigano do Bacelo, no Porto.

À meia-noite, o desalento. A providência cautelar, entregue pela Plataforma Artigo 65 ao Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto, que tentava adiar a decisão de despejo das 16 famílias, onde se incluem 23 crianças, que habitam as barracas do bairro do Bacelo, freguesia de Campanhã, fora indeferida. A ideia era ganhar tempo para que a Plataforma conseguisse convencer a Câmara Municipal do Porto, que na passada quinta-feira deu um prazo para os moradores abandonarem as barracas até ontem à meia-noite, a encontrar alternativas de realojamento para as famílias.

Na rua, havia música cigana, febras na brasa, cerveja nas grades. Mas havia também ansiedade nos rostos e nas conversas dos habitantes, que procuravam esclarecimentos com elementos da junta de freguesia de Campanha e advogados e membros da Plataforma Artigo 65. “O que é que havemos de fazer?”, era a pergunta que mais se ouvia. Ir para uma pensão? Dormir nas carrinhas? Nenhuma das opções parecia agradar. Ouve-se uma contra-proposta: “e se a câmara nos alugasse um terreno com água e luz e nos deixasse construir as nossas próprias casas?”, perguntava um morador. A ideia foi bem recebida. Mas todos sabiam da enorme dificuldade de fazer passar uma ideia que já não se vê desde o SAAL, de apoio à habitação, implementado em época revolucionária.

Ali moram há 21 anos, ocupando terrenos privados contíguos ao Palácio do Freixo, no lado oriental da cidade. Não querem sair para as pensões prometidas pela Câmara Municipal do Porto. Francisco Machado, o patriarca da comunidade cigana do Bacelo, não aceita a decisão. “Para uma pensão não vou. Fico aqui até poder”. O sentimento alastra-se ao resto dos habitantes. “A segurança social poupava se nos deixasse ficar aqui mais 60 dias. Se já nos prometeram alojamento dentro desse prazo, então deixem-nos estar nas barracas até nos darem as chaves”, afirma Elídio Machado.

Luduvina Machado tem cinco filhos e espera o sexto. Diz não dormir bem há algumas noites. Tem medo que as máquinas deitem a barraca abaixo com os filhos lá dentro. “Nós queríamos uma casa. Aqui há ratos e no Inverno faz frio. Mas não queremos sair desta maneira”, afirma. Mostra a barraca, o espaço da cozinha improvisada há mais de uma década, o quarto dos filhos com um beliche feito à base de placas de madeira pregada, a sala com uma lareira de latão que aquece a família em noites mais frias. É pobre mas é o que tenho. Foi construída por mim e pelos meus cunhados. Aqui ajudamo-nos uns aos outros”, conta Luduvina.

Vera, nove anos, brinca perto da fogueira. Frequenta a escola, tal como as restantes crianças do bairro. Gosta de viver no Bacelo, onde brinca livremente com amigos e amigas. “Mas preferia morar numa casa, onde houvesse mais condições e pudesse ter um quarto só para mim. Só que tenho medo que a minha família se separe e vá cada um para seu lado”, confessa.

António Pinto, assistente social da freguesia de Campanhã, a mais pobre do concelho do Porto, considera o despejo um entrave aos progressos que têm sido feitos no campo da alfabetização e reinserção social. “Tem que se resistir. Estas famílias não podem perder a habitação de um dia para o outro sem que sejam encontradas soluções que não passem apenas pelo alojamento temporário em pensões”, diz, confirmando que todos os habitantes do bairro subsistem do rendimento mínimo garantido. Para António Pinto, que trabalha há dez anos com os ciganos do Bacelo, o problema já podia ter sido solucionado, no tempo em que Fernando Gomes era presidente da Câmara, através do Programa Especial de Realojamento (PER). “Tinha sido uma excelente oportunidade para resolver o problema destes barracos sem o mínimo de condições”, diz.

Até quinta-feira, prometem resistir ao avanço das máquinas. “O meu tecto é de chapa e de madeira, deixa entrar o calor e não tapa o frio. Mas é o que tenho. E não gostava nada de o perder”, diz Sandra Gomes, moradora. Agora resta-lhe esperar para ver o que vai acontecer.