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Um Acordo sem paixão

Gustavo Costa, correspondente em Luanda

A adopção do acordo ortográfico recentemente aprovado por Portugal está longe, muito longe mesmo de despertar grandes paixões em Angola. Os angolanos observam o documento, que mal conhecem, com muito distanciamento.

De resto, segundo apurou o Expresso, não há oficialmente até hoje nenhuma posição oficial assumida pelo governo de Luanda. "Há correntes que são favoráveis e outras que se opõem mas a separação dos sectores da cultura e da educação que antes estavam fundidos num único ministério, veio baralhar as coisas", disse um alto funcionário do Ministério da Cultura.

E, se hoje, nos meios urbanos, por força da invasão da televisão e da parabólica há minorias que se sentem ameaçadas com a influência de certas expressões brasileiras, elas não têm, porém, a força do português originário que se fala e se escreve em Angola.

"Angola não tem norma própria e cinge-se pelo português de Portugal", esclareceu Helena Miguel, professora de técnicas de expressão do português na Universidade Católica.

Já o linguista e docente da mesma instituição, António Costa, defende que "não existindo nenhuma língua bantu falada em toda a extensão do território nacional, a língua portuguesa constitui um instrumento de coesão entre falantes de línguas maternas diferentes em todo o país, capaz igualmente de contribuir para a sua integração na comunidade internacional".

Helena Miguel sustenta que para a salvaguarda da ortografia de vocábulos oriundos das línguas nacionais deve "adoptar-se o mesmo critério quando se trata de empréstimos linguísticos de uma qualquer língua para outra, uma vez que os vocábulos daquelas costumam vestir a 'roupagem' do português não só no plano ortográfico, como muitas vezes, no fonético".

Já o escritor Arnaldo Santos admite que a língua portuguesa em Angola, "com a evolução do tempo e das contribuições endógenas das línguas nacionais e das que hão-de provir das línguas nacionais dos povos que connosco trabalham, sofrerá alterações". Mas, conclui irredutível o cronista, "a minha actividade literária seguirá orgulhosamente alheia às convenções que se vão firmar".

Com alguma reserva, o ensaísta e crítico literário, Luís Kandjimbo, ao reconhecer que a língua portuguesa é um instrumento de elevada importância para a realização de determinadas funções do Estado, defende que esse reconhecimento "não deve levar ao extremo de liquidar as línguas nacionais, na medida em que estas têm outro peso no quadro da afirmação geopolítica austral" e critica os sectores influentes das elites intelectuais portuguesas, que "defendem a língua portuguesa como património exclusivo de Portugal".

O escritor acrescenta que o português, enquanto língua de trabalho da ONU, tal como propôs o Presidente Cavaco Silva, "só poderá ter a importância geopolítica que merece se, no plano internacional, for da responsabilidade do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, representando os membros da CPLP como seus co-proprietários".