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Tributo ao autor de 'Grândola, Vila Morena'

Nos 20 anos da sua morte, o país honra a memória daquele que foi um dos maiores trovadores antifascistas. Zeca partiu mas as canções continuam bem vivas.

Vinte anos depois da morte de Zeca Afonso, multiplicam-se de Norte a Sul  as homenagens ao cantor e compositor que se tornou um símbolo da resistência ao fascismo. O autor de 'Grândola, Vila Morena', música que ficará para sempre associada à revolução de Abril, morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987, aos 58 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

As comemorações – debates, concertos, sessões de poesia, exposições e lançamentos de CDs com canções do Zeca – arrancaram nos primeiros dias deste mês e prosseguem até Novembro, altura em que o grupo de percussão Steeel Drumming dará concerto de encerramento, no Montijo, dia 9.

Às iniciativas previstas pelos vários núcleos da Associação José Afonso, juntam-se muitas outras levadas a cabo pela Associação 25 de Abril, Sindicatos de Professores, teatros, centros culturais e câmaras municipais. 

Umas das homenagens mais significativas é o novo CD dos 'Ervas de Cheiro' – edição de autor – no qual se revisita a obra do cantor (ver caixa). O disco é parte da banda sonora do espectáculo 'Que Viva o Zeca', que estreou no passado dia 3, na Casa do Povo de Longra, em Felgueiras, e será apresentado este sábado no Fórum Lisboa, no âmbito de um programa organizado pelo Movimento Cívico 'Não Apaguem a Memória'.

Este mês, todas as sextas e sábados à meia-noite, no Teatro Municipal São Luiz, a  fadista Cristina Branco interpreta 'Canções do Zeca'.

O poeta da resistência

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (nome de baptismo de Zeca Afonso) passou a primeira infância entre Aveiro, onde nasceu, África e Belmonte, onde completou a instrução primária. Aos 11 anos, foi viver para Coimbra, onde começou a cantar, frequentava então o 5.º ano no Liceu D. João III.

Muito cedo, o cantor começou a ter preocupações sociais, que vão marcar toda a sua vida e obra. A pobreza do Bairro do Barredo, no Porto, inspirou-lhe a balada 'Menino do Bairro Negro'. Em 1958, grava o seu primeiro disco, 'Baladas de Coimbra'.

Até 1959,  Zeca Afonso ensinou Francês e História na Escola Comercial e Industrial de Alcobaça. Em 1964 parte novamente para Moçambique, onde foi professor de Liceu. Entretanto, desenvolveu uma intensa actividade anticolonialista.

De regresso a Portugal, é colocado como professor em Setúbal. Mas a sua resistência ao regime salazarista leva-o a ser expulso do ensino.  Para sobreviver, dá explicações.

Entre 1967 e 1970, o autor de 'Vampiros' torna-se símbolo da resistência democrática. Neste período, participa activamente nos movimentos sindicais, bem como em acções de estudantes de Coimbra. Mantém contactos com a LUAR – Liga de Unidade de Acção Revolucionária e com o PCP, pelo que é preso várias vezes pela PIDE.

Em 1969, participa no 1.º Encontro da 'Chanson Portugaise de Combat', em Paris, e grava 'Cantares do Andarilho', sendo distinguido pela Casa de Imprensa como melhor disco do ano. Por esses dias, era alvo da censura, passando a ser tratado nos jornais pelo anagrama Esoj Osnofa.

O álbum 'Cantigas de Maio', lançado no Natal de 1971, que inclui a célebre 'Grândola, Vila Morena', marca de forma indelével a carreira do cantor. Participa em vários festivais e, um ano depois, lança o disco 'Eu vou ser como a toupeira', no qual interpreta 'A morte saiu à rua', que dedica ao escultor Dias Coelho, assassinado pela PIDE em 1961.

Em 1973, canta no III Congresso da Oposição Democrática. Em Abril desse ano, é preso e enviado para Caxias, onde fica detido até finais de Maio. Pelo Natal grava o álbum 'Venham mais Cinco', com a colaboração de José Mário Branco, onde interpreta 'Redondo Vocábulo', poema escrito na cadeia.

No Natal de 1975, surge o seu primeiro álbum pós 25 de Abril, 'Coro dos Tribunais', uma nova fase da sua música, caracterizada pelos ritmos africanos de canções compostas em Moçambique.

Zeca Afonso dá os seus últimos concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto, em 1983, quando já se encontrava doente. Neste ano, é-lhe atribuída a Ordem da Liberdade, que recusou. A 2 de Agosto faria 78 anos.

 

TRÊS PERGUNTAS AOS 'ERVA DE CHEIRO'

Porquê o tributo a Zeca Afonso?

Porque consideramo-los um exemplo de poeta, músico e cidadão. A sua música tem potencialidade para novas sonoridades. Muitas das suas mensagens continuam actuais. A pobreza, o desemprego, a guerra e a globalização provam esta afirmação. De facto, a guerra colonial acabou, mas outras guerras continuam a matar milhares de inocentes e alimentam o negócio da indústria da guerra, mantendo-se em muitos pontos do globo os contornos imperialistas que o Zeca já então denunciava.

O que consideram mais importante: a sua vida, a sua obra ou o seu exemplo de cidadania?

Não se pode dissociar a sua música da sua vida pessoal e da sua luta pela democracia. Com o passar do tempo, porém, corre-se o risco de só ficar na memória colectiva a sua música.

Vinte anos depois da sua morte, saberão os mais jovens quem foi Zeca Afonso ou o que representou o 25 de Abril?

Não são poucos os que continuam a ouvir e a cantar o Zeca, mas a verdade é que as suas músicas não têm a devida repercussão nas emissoras de rádio e televisão. Naturalmente que os ministérios da Cultura deveriam dar maior atenção ao cumprimento dos programas escolares sobre a nossa história recente. Faz falta agitar a malta e estimular o sentido crítico dos cidadãos. Faz falta os cidadãos organizarem-se mais e melhor, para impedir que a memória deste período não seja apagada da memória colectiva.