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Três galos para um poleiro

O México elege este fim-de-semana o seu Presidente e um novo Parlamento. Mas é a batalha presidencial que domina as atenções

«Sorria, vamos ganhar!». Foi com estas palavras que Andrés Manuel Lopes Obrador se despediu na quarta-feira de centenas de milhares de pessoas que enchiam o Zocalo, a monumental Praça Maior da Cidade de México para o comício de encerramento da sua campanha. Chovia, mas o «sol azteca», símbolo do Partido da Revolução Democrática (PRD), a que pertence, aquecia o coração do candidato da esquerda à sucessão do Presidente Vicente Fox e dos seus apoiantes.

As últimas sondagens dão a AMLO (as iniciais do seu nome e como é popularmente chamado) quatro a cinco pontos de vantagem sobre o conservador Felipe Calderón, líder do Partido Acção Nacional (PAN), embora o candidato garanta que as suas informações lhe asseguram um avanço mais folgado.

À mesma hora, em Guadalajara, a segunda maior cidade do país e capital do estado de Jalisco, os «azules» — os apoiantes de Calderón — também davam a vitória como segura. Dois irmãos de «Martita» Sahagun (a primeira-dama e grande obreira da vitória do Presidente-cessante, Vicente Fox, com quem casou em 2001) estavam presentes na tribuna ao lado de «Felipe», dando ao candidato da direita o estatuto de virtual «herdeiro» de Fox.

Terceiro nas sondagens, Roberto Madrazo, candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), escolheu Vera Cruz para fechar a sua campanha e provou que o partido que esteve no poder de 1929 até 2000 conserva uma invejável capacidade de mobilização. Madrazo prometeu uma «má surpresa» aos rivais porque os pobres «estão fartos de aventuras».

A segunda transição

A inesperada vitória de Fox, há seis anos, incita à prudência. Em 2000, os «amigos de Fox» souberam dar um rosto ao desejo de mudança e juntar muitos votos de esquerda à base tradicional do PAN, católica e conservadora. Se a popularidade do Presidente continua alta (65%), a Aliança para a Mudança que o levou à vitória está desfeita.

Os Verdes romperam com o PAN para se aliarem ao PRI e o «voto útil» favorece agora AMLO, o candidato mais popular, capaz de juntar descontentes de todos os quadrantes. A abstenção, os jovens eleitores e os emigrantes (que poderão votar pela primeira vez amanhã) constituem outras incógnitas que podem alterar o desfecho de uma campanha renhida e cheia de «golpes baixos».

O próprio Fox (eleito por 42,5 dos votos) disse numa entrevista publicada esta semana que o seu sucessor — «seja qual for ele» — não terá mais do que 36%.

Fox ficará na história como o primeiro Presidente que cortou o cordão umbilical que atava o México à Revolução de 1913 e ao culto dos heróis nacionais Pancho Villa, Emílio Zapata e Lazaro Cárdenas (pai das nacionalizações). Deixará em Dezembro um país mais «moderno e livre», mas «cheio de ruído e confusão», segundo o historiador Enrique Krauze. De Ernesto Zedillo, último Presidente do PRI, herdou uma economia em crescimento, mas não cumpriu nenhuma das promessas feitas há seis anos.

A situação social é explosiva, a violência e a repressão aumentam mas, para Fox, os conflitos em curso têm «causas locais». O Banco Mundial é menos optimista.

O papão de Chávez

Nos Indicadores do Desenvolvimento Mundial 2006, o BM observa que o México consolidou o seu lugar de 10.ª potência económica (entre o Canadá e a Índia). Mas em termos de poder aquisitivo per capita, está hoje ao nível do Botswana e recuou 10 lugares no Índice de Desenvolvimento Humano.

A direita mexicana apresentou AMLO como um perigoso populista, versão mexicana do venezuelano Hugo Chávez. Patronato e bispos católicos juntaram a sua voz ao coro e o Instituto Federal Eleitoral acabou por proibir a difusão de spots televisivos de Calderón que utilizavam imagens de Caracas para fomentar o medo. A imprensa norte-americana foi mais cautelosa. Admite que AMLO fez obra útil como autarca da Cidade de México e conquistou o respeito da classe média e de muitos intelectuais com o seu estilo de vida austero.

A opinião pública americana concorda com muitas das acusações de AMLO ao actual Governo mexicano e não acha o seu programa muito mais «radical» que o do brasileiro Lula. Por outro lado, se for eleito, é com ele que os EUA vão ter que encontrar soluções para os crónicos problemas bilaterais e a Casa Branca não quer tornar mais difíceis as relações.

Para os EUA, há que evitar despertar o sentimento anti-yankee latente na memória colectiva dos mexicanos. Uma vitória de AMLO seria um mal menor face à eventualidade de uma crise pós-eleitoral, geradora de instabilidade política prolongada, no caso de impugnação dos resultados.